A VÍRGULA

O mestre Celso Pedro Luft sempre se preocupou em advertir seus alunos de que “a nossa pontuação – a pontuação em língua portuguesa – obedece a critérios sintáticos, e não a prosódicos”, isto é, de fala. Ainda segundo o professor, “nem a toda pausa corresponde uma vírgula, nem a toda vírgula corresponde uma pausa”. Não temos necessariamente uma vírgula porque fazemos uma pausa ao falar…

Acho que essa orientação é fundamental para se começar a entender a questão de como se pontuar o texto escrito, dificuldade enfrentada por muitas pessoas. Vamos ver se consigo ser claro e sucinto…

Antes de tudo, não se separa o sujeito de seu verbo por vírgula: em “Edílson ouve música para relaxar”, o sujeito é “Edílson”, enquanto “ouve” é o verbo; se eu quiser incluir um termo entre o sujeito e o seu verbo, aí deverei usar vírgulas: “Edílson, todos os dias, ouve música para relaxar”.

O primeiríssimo caso de vírgula vem a ser a enumeração, a sequência de itens. Por exemplo, “Comprei lápis, papel, régua, compasso e borracha”, utilizando-se a conjunção “e” antes do último item.

Isso também acontece com as orações sem conjunção, as chamadas Orações Coordenadas Assindéticas; “Ela saiu, foi ao shoppping, fez suas compras, almoçou com suas amigas, voltou satisfeita para casa”.

As chamadas Orações Adjetivas Explicativas também vêm separadas por vírgulas. Vamos com calma: essas são orações dispensáveis, elas podem ser retiradas sem que a clareza da mensagem seja comprometida. Considere o exemplo: “O Brasil, que possui um litoral maravilhoso, explora mal o turismo”. Vejam que toda a oração entre vírgulas pode ser apagada sem que o sentido do que restou fique comprometido: “O Brasil explora mal o turismo”. Só

existe um país chamado “Brasil”, então a explicação que se dá sobre seu litoral pode ser omitida.

Isso não acontece em um período como “A professora que me ensinou a tabuada era muito bonita”, pois existem muitas professoras, e se eu disser “A professora era muito bonita”, o leitor perguntará: “Que professora?”. O termo “professora” não se restringe por si só. Nem todas eram bonitas, somente a “que me ensinou a tabuada”. Assim, essa oração deverá vir sem vírgulas, ela é uma Oração Adjetiva Restritiva.

Quando eu desloco uma Oração Condicional ou uma Oração Temporal, devo utilizar a vírgula também. Isso é fácil. Observe este período que eu construo na ordem direta: “Irei à praia se não chover”. A oração “Se não chover” é a condição para eu vá à praia. Se eu inverter, querendo dar ênfase a essa exigência, o período ficaria: “Se não chover, irei à praia”. Um exemplo com Oração Temporal agora: “A reunião já havia começado quando ela chegou ao escritório” – ordem direta. Vamos inverter? “Quando ela chegou ao escritório (tempo), a reunião já havia começado”.

Um outro caso em que a vírgula deve ser utilizada vem a ser com o chamado “Aposto”. O “Aposto”, ensinam os gramáticos, é um termo que amplia, explica, desenvolve ou resume um outro termo. Vamos lá: “Machado de Assis, nosso maior escritor, produziu uma vasta obra literária”. Tudo o que está entre vírgulas nesse período vem a ser uma explicação sobre o autor carioca – “nosso maior escritor”. Mais um exemplo? “A Filosofia, ciência dos pensadores, busca o saber sobre a existência humana”. No período, “ciência dos pensadores” é um aposto sobre “Filosofia”.

Há uma função sintática que exige sua separação por vírgulas em nome da clareza do que se quer transmitir – eu falo do “Vocativo”. O “Vocativo” é aquele termo com o qual eu chamo, convoco, nomeio a pessoa à qual eu me dirijo. Ele tem de ser separado por vírgula(s) na escrita, a fim de que não se transmita uma mensagem ambígua. Tenho um amigo no interior de São Paulo, muito talentoso na cozinha, que, generosamente, sempre oferece almoços e jantares em sua casa. Imaginemos que, comida pronta, ele chame seus convidados: “Vamos comer, gente!”. Deu pra perceber a importância da vírgula no período? O que ele falou é bem diferente de “Vamos comer gente”, não é? Vírgula imprescindível nesse caso!

A declaração “O professor me contou uma história, pessoal” é bem diferente de “O professor me contou uma história pessoal”.

Se o vocativo vier no começo, vírgula depois dele. Nos versos da bonita canção de Ângela RoRo, lê-se:

 

(…) Amor, meu grande amor,

Me chegue assim bem de repente Sem nome ou sobrenome

Sem sentir o que não sente (…)”

 

No famoso poema “Mensagem”, de Fernando Pessoa:

 

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! (…)”

 

Se vier no meio, vírgulas antes e depois:

 

Canta, canta, minha gente, deixa a tristeza pra lá,

Canta forte, canta alto, que a vida vai melhorar(…)” – Martinho da Vila.”

 

Caso venha no fim, vírgula antes, como na importante campanha do Ministério da Saúde, “Vacina, Brasil!”.

 

Toda essa história de vírgulas e vocativos sempre me lembra a uma carta de um leitor ao jornal “O Estado de S. Paulo”. Era o ano de 1988, eu fazia faculdade de Letras e trabalhava lá. O sempre polêmico e folclórico Jânio Quadros era o prefeito de São Paulo. Foi uma época conturbada na qual ele tentou trazer para cá os ônibus vermelhos de dois andares tão típicos da cidade de Londres. Claro que não deu certo! Foi uma época também em que sua mulher, Eloá, enfrentou muitos problemas de saúde, tendo de ir à Europa frequentemente para tratamento médico. Jânio, obviamente, ia junto.

Naqueles relógios/termômetros de rua, Jânio mandou que se escrevesse: “É hora de trabalhar. Jânio Quadros”, como a incitar a população, causando a revolta de muita gente que trabalhava muito, que enfrentava jornadas pesadas, além das dificuldades de transporte etc. Havia mesmo muita gente indignada com o “alerta” do prefeito, gente que absolutamente não precisava ser “avisada”.

Lembro-me da carta de um assinante do jornal – estamos falando de tempos pré-internet e pré-telefone celular – na qual, furioso, ele fazia a seguinte sugestão: “O prefeito diz que é hora de trabalhar, mas nunca está em São Paulo, sequer está no Brasil. Penso que esse convite seria mais adequado a ele do que a nós, paulistanos, que estamos por aqui todos os dias. Que tal se fizéssemos uma alteração? Que tal se, no lugar de ‘É hora de trabalhar. Jânio Quadros’, puséssemos uma vírgula no lugar do ponto final? Ficaria muito melhor e mais justo: “É hora de trabalhar, Jânio Quadros'”.

Genial!

Bibliografia:

LUFT, Celso Pedro. A Vírgula, São Paulo, Ática, 1996, pp. 01-09.

PESSOA, Fernando. Mensagem, Rio de Janeiro, Batel, 2011, p. 03

Músicas citadas:

“Amor, meu grande amor” – Ângela RoRo – 1980

“Canta, canta, minha gente” – Martinho de Vila – 1974

SÍMBOLOS E HINOS
15 DE OUTUBRO

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