A questão da ambiguidade

Dentro da Teoria da Comunicação, “ruído” vem a ser tudo aquilo que pode atrapalhar a mensagem, tornando-a pouco clara ou mesmo com duplo sentido, impedindo que o receptor a compreenda como deveria.

O termo “ambiguidade” originou-se do latino ambiguitas que significa equívoco, incerteza. A Anfibologia, considerada sinônimo de ambiguidade, também tem significado semelhante. A palavra vem do grego “amphibolia que quer dizer duplicidade de sentido. Assim, a ambiguidade pode ser entendida como o duplo sentido de um termo ou de uma mensagem como um todo.

Esse recurso não é bem-vindo, principalmente, em textos científicos e em documentos oficiais cuja linguagem deve ser mais formal e ligada à precisão das regras gramaticais de clareza, coerência e concisão.

Ainda assim, seu uso é permitido em vários contextos, como por exemplo nos poemas, na linguagem coloquial e em obras literárias que registrem a língua falada ou se baseiem nela.

Nos textos informais, o duplo sentido, além de provocar o riso, pode também ser uma maneira inteligente de atingir o receptor de quem a atenção se queira atrair. Muito comum no discurso publicitário – no qual se utiliza muito a polissemia dos signos linguísticos, por exemplo -, a ambiguidade pode ser um poderoso recurso na memorização de uma marca ou de um estabelecimento comercial.

É importante saber quando e como utilizar a ambiguidade – e estar alerta para as situações em que ela não é recomendável.

Há numerosos exemplos em que esse recurso foi utilizado com inteligência, perspicácia e bom humor. Podemos citar dois deles:

a) “Se alguém anunciar que é mais barato que a Embratel, não ligue. É engano. – anúncio da Embratel (Empresa Brasileira de Telecomunicações S.A.)

b). “Nossos clientes nunca voltaram para reclamar” – anúncio de uma funerária.

Nem sempre, porém, a ambiguidade é pensada e calculada. Muitas vezes, o texto acaba sendo ambíguo por pura falta de cuidado de quem o escreve – nesses casos, passa-se uma mensagem que não se desejou e provoca-se um riso que não se esperava provocar. O site de notícias UOL, em 22 de julho de 2014, por exemplo, exibiu uma notícia com a seguinte manchete: “Policial salva bebê que se engasgou com leite por telefone”. Como se costuma dizer, a chamada da matéria era uma piada pronta – provavelmente porque  não passou pelos olhos de um revisor antes de aparecer no site. O problema aí, obviamente, foi a disposição das palavras no período. Talvez uma nova redação remediasse o caso: “Por telefone, policial salva bebê que se engasgou com leite” – embora fosse necessário ler a matéria para se entender a estranha manchete.

Uma questão de vestibular ficou bastante famosa exatamente porque exigia dos alunos que eles percebessem a ambiguidade provocada por uma única palavra e exigia também que eles corrigissem o trecho com o problema:

(Unicamp) No trecho que se segue, há uma passagem estruturalmente ambígua (isto é, uma passagem que poderia ser interpretada de duas maneiras, se ignorássemos o que é geralmente pressuposto sobre a vida de Kennedy).

Identifique essa passagem, transcreva-a, aponte as duas interpretações possíveis e explique o que a torna ambígua do ponto de visa estrutural.

E se os russos atacassem gora?, perguntou certa ocasião […] Judith Exner, uma das incontáveis amantes de Kennedy, que, simultaneamente, mantinha um caso com o chefão mafioso Sam Giancana.”  (Revista Veja, número 1002, 18.11.1987)

As respostas para essas questões eram simples, embora o vestibulando tivesse que prestar atenção. O problema concentrava-se na utilização do pronome relativo “que”, pois esse é um termo utilizado tanto para o gênero masculino quanto para o feminino. Assim, o “que” do texto poderia remeter a Judith ou a Kennedy – quem mantinha uma caso simultâneo com o chefão mafioso? Ele ou ela? Uma das soluções seria a utilização de “a qual” para se desfazer a ambiguidade.

Às vezes, o duplo sentido é provocado por uma pontuação equivocada ou até pela ausência de pontuação. Consideremos a seguinte brincadeira muito frequente nos grupos de whatsapp. Como você pontuaria o período abaixo?

Se as mulheres soubessem o valor que têm os homens andariam de joelhos”.

Se você for um homem, certamente usará a vírgula depois de “homens”; se você for mulher, sua vírgula virá depois de “têm”.

Não se esqueça de que a clareza de uma mensagem depende de vários fatores – entre eles, a escolha do vocabulário, a disposição das palavras no período e uma pontuação correta.

Na dúvida, é sempre bom procurar a opinião de alguém. Somos os piores juízes de nós mesmos e nem sempre avaliamos bem o que escrevemos.

Cuidado com a ambiguidade nos seus próximos textos!

Consulte sempre um advogado – uma abordagem semiótica do direito

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