A LINGUAGEM DAS MÃES

– Lava a orelha direito, menino! E para de brincar com a água. Toma banho logo que seu pai não é sócio da Sabesp!

Essas e outras “recomendações” foram ouvidas por toda uma geração de filhos. Essas e outras “recomendações” foram proferidas por toda uma geração de mães do lado de fora do banheiro, enquanto seus pimpolhos vinham da escola com o uniforme em petição de miséria. Isso quando não vinham da rua mesmo, roupa suja, pés encardidos de tanto brincar no asfalto ou na rua de terra. E lá iam elas, nos empurrando para debaixo do chuveiro e dando “indicações” do que deveria ser feito.

Minha mãe costumava dizer que uma casa sem a mãe não tinha graça, perdia a vida. A mulher é a alma de uma família – tudo fica muito sem graça somente com o pai. Talvez seja por isso que os homens, com raras exceções, não fiquem viúvos por muito tempo ou mesmo acabem falecendo logo depois de perderem a esposa. São conjecturas minhas, e o leitor tem todo o direito de discordar.

O fato é que nossas vidas são marcadas também pelo vocabulário e pela linguagem de nossas mães. Ora muito filosóficas, ora muito bravas e até mesmo sentindo-se “derrotadas” diante do trabalho que seus filhos lhes davam, elas proferiam frases inesquecíveis nas mais diversas situações de nossas vidas. Minha mãe, por exemplo, quando íamos a algum lugar (farmácia, supermercado, padaria, açougue etc.) e esquecíamos alguma coisa, disparava: “Quem não tem cabeça tem perna. Volta lá e compra o que eu pedi”. E a gente voltava, claro. A gente obedecia.

Minha avó, que sempre considerei uma segunda mãe pra mim (porque ela efetivamente foi!), também tinha suas tiradas e conselhos. Ela dizia, por exemplo: “Cuidado com o que você faz escondido. Tem sempre alguém que vê”. E a gente morria de medo disso.

Acho que as mães, antigamente, eram mais bravas, mas pode ser que eu esteja pensando com meu coração de criança, coração de menino que aprendeu a respeitá-las – à minha e à dos outros – porque era isso que elas mereciam. Claro que “chinelos cantavam” na minha casa e na dos meus amigos. Impressionante o amor que elas tinham pelos canteiros e pelas rosas que cultivavam na frente de suas casas humildes nos vários bairros em que morei. E, quando a bola caía em cima de uma roseira, a gente se preparava porque vinha chumbo grosso!

Escrevo perto do Dia das Mães. Alguns dirão que isso é bobagem, pois dia da mãe é todo dia. Concordo: é todo dia! Todo dia é dia de respeitar a mãe da gente, todo dia é dia de dar-lhe um beijo, de dizer palavras carinhosas. Conflitos existiram? Claro que sim. Somos humanos. Elas, também.

Certa vez, minha mãe me surpreendeu ao me mostrar um pequenino cartão que fiz no meu terceiro ano de escola exatamente para o Dia das Mães de 1973. Eu contava nove anos, o cartão era um recorte de cartolina rosa, um texto pequeno de letrinhas coloridas feitas com as extintas Canetinhas Sylvapen, pois tinham cores muito mais vivas do que os tradicionais lápis de cor. Olhei aquilo e entendi que somente uma mãe poderia ter guardado um negocinho tão simples por tanto tempo!

Se elas tinham (têm) o seu vocabulário, nós também nos tornávamos bons meninos e boas meninas nos dias que antecediam o segundo domingo de maio. Na escola, fazíamos algum presentinho e me lembro de que alguns amiguinhos mais pobres tinham apenas isso pra dar a suas mães no seu dia. E a professora ensinava a gente a escrever algumas palavras bonitas; eram textos prontos, claro, tudo muito simples, mas a meninada fazia com capricho.

Uma vez, vi um para-choque de caminhão com palavras muito singelas, muito simples, de uma simplicidade enorme que demonstrava toda a religiosidade do brasileiro mais humilde e que dirige quilômetros e quilômetros de estrada, passando meses sem poder ver a mãe ou os outros familiares. A frase dizia: “Vi minha mãe rezando aos pés da Virgem Maria / Era uma santa escutando o que a outra santa dizia”. Não eram versos elaborados por um Camões, mas me emocionei com a espontaneidade do autor.

Recebi, via Whatsapp, uma mensagem na qual se compilam “Quinze coisas que toda mãe diz”. Das mais engraçadas às mais dramáticas, as frases nos fazem lembrar de nossas mães com cara de bravas, às vezes escondendo o riso, às vezes escondendo o choro. E a gente ri com muita saudade e ternura. São elas:

  1. Quando eu morrer, vocês vão me dar valor.
  2. Coração de mãe não se engana.
  3. Se continuar chorando, vou te dar um motivo de verdade pra chorar.
  4. Espera só quando a gente chegar em casa.
  5. Não quero saber se todo o mundo vai; você não é todo o mundo.
  6. Não sei o que seria dessa casa sem mim.
  7. Leva o casaco que vai esfriar (com variações para “Leva o guarda-chuva que vai chover”).
  8. Engole esse choro agora!
  9. Não faz mais que sua obrigação.
  10. Não corre que é pior… (já com o chinelo na mão!)
  11. Se eu for aí e achar…
  12. Se eu levantar daqui…
  13. Eu não estou pedindo, eu estou mandando!
  14. Você não comeu nada! Fiz com tanto gosto!
  15. Na sua idade, eu estudava e trabalhava…

Há muitas outras, sem dúvida. E, se a mãe chamava a gente pelo nome completo, então, só Deus poderia nos salvar!

A todas as mães, meu carinho e meu respeito.

À minha mãe e à minha avó, o meu amor e o meu muito obrigado por terem me dado e ensinado tanto!

Sinto muita saudade.

Posts relacionados

A FÁBULA E O APÓLOGO
TRÊS FIGURAS DE LINGUAGEM

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Preencha esse campo
Preencha esse campo
Digite um endereço de e-mail válido.

Menu