A FORMAÇÃO DE UM ADULTO

    Não se improvisa um homem do mundo”

– Georges Minois, historiador francês.

 

Leio em famoso portal de notícias da internet que, agora, existem cursos para a “formação de adultos”, isto é, pega-se o jovem e, teoricamente, transforma-se a criatura numa pessoa com todos os direitos e deveres dos quais, com a idade, ele/ela  deveriam estar cientes.

Li e reli a matéria, e as transformações que seu autor aponta são assustadoras. Diz ele que a moçada de hoje  – filhos e filhas dos “baby boomers”, os nascidos entre 1946 e 1964 – não foi preparada para encarar a vida “aqui fora”, isto é, fora da casa dos pais. Preferem ficar em seus quartos, cercados de bichinhos de pelúcia, teclando indefinidamente sabe-se lá para quem, e consultando o Google para absolutamente tudo, desde como trocar uma lâmpada (quando não é pai que o faz) até tomar um sorvete (costumam pesquisar as marcas que estão “bombando”). Isso, sem falar dos tais “influencers” , verdadeiros gurus da garotada. Meu Deus!

A matéria diz ainda que, agora, a adolescência vai dos 10 aos 24 anos – embora, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, a maioridade comece aos 18. Assim, constata-se uma defasagem entre teoria (lei) e a prática (vida quotidiana). Penso, contudo, que essa “esticada” não atinge a todos e ela está intimamente ligada à classe social do rapaz e da moça.

Lá em casa, sempre fomos muito humildes. Meu pai era operário; ganhava, quando muito, três ou quatro salários mínimos, com os quais pagava luz, água e aluguel, punha comida na mesa, vestia os filhos e a esposa e dava-lhes uma vida digna, ainda que sem luxos. O grande luxo que eu tive, e sempre soube disso, foi começar a trabalhar somente com 16 anos, enquanto amiguinhos meus lá do bairro já empacotavam compras nos supermercados ou ajudavam seus pais no armazém com apenas 12, 13 anos de idade. E eu, já com 14 ou 15, só estudava. Digo “só” porque era um luxo mesmo. Meu pai aguentava a coisa com muita valentia. Minha mãe, por sua vez, fazia tricô, vendia produtos de beleza, fazia toalhinhas de crochê e ia ganhando o dinheirinho dela para ajudar em casa.

Desde cedo, sabíamos o valor do dinheiro, o quanto ele custava para entrar no fim do mês. Não éramos irresponsáveis e, quando ganhávamos alguma grana dos avós ou mesmo dos pais, era uma festa!

A matéria do portal fez com que eu pensasse naqueles meninos e meninas, com seus dez, 11 aninhos, que já “trabalham”, vendendo coisas nos cruzamentos da cidade, que já levam para casa um dinheiro suado e ganho a duras penas para suas famílias numerosas nos bairros da periferia dos grande centros. Para essas crianças, a adolescência não existirá – não haverá quarto cheio de bichinhos, não haverá Google, nem crise existencial, nem cara feia por não poder viajar para a Disney, nem a festa de aniversário para reunir a classe toda do colégio com seus 50 amigos no salão do condomínio.

Não entendo o medo da vida adulta que muitos do meus alunos sentiam na época em que eu trabalhava com vestibulandos. Certa vez, eu dizia em classe que ter o próprio apartamento e um vida independente eram coisas formidáveis. Uma aluna, bem mal humorada, me respondeu: “Professor, pra que eu vou sair da casa dos meus pais? Lá tenho roupa lavada e passada, comida da minha mãe, quarto limpo, tudo prontinho…”. Respondi para ela: “Então, você não gosta da sua mãe. Você gosta do serviço que ela faz pra você…”. Uma coisa é viver com os pais por responsabilidade; outra, por dependência.

Quando penso nessa “Síndrome de Peter Pan”, a teoria de Modernidade Líquida, do professor Zygmunt Bauman (1925 – 2017), faz todo o sentido: a liquidez e a falta de consistência nas esferas da vida social – como o amor, o trabalho, a amizade, a educação etc. – advêm, em grande parte, da imaturidade e do medo de se enfrentar a vida “aqui fora”. Conheço jovens de 25, 28 anos que dizem para quem os quiser ouvir: “Quero um relacionamento sério. Adoraria ter um namorado/namorada para viver um grande amor”. E ficam pensando que viverão na pele as comédias românticas hollywoodianas que pululam nos cinemas e nas televisões por assinatura. Claro que não encontram… e rompem o tal relacionamento na primeira briga – para voltarem aos seus quartos, rodeados de seus bichinhos de pelúcia e “influencers”.

A matéria do portal ainda relata que a  Universidade da Califórnia, em Berkeley, é uma das instituições que oferecem, nos Estados Unidos, um curso de “adulting” como solução para que os jovens de hoje possam “encarar o mundo real de forma autônoma”.

Se dependesse dessa moçada, os Beatles jamais teriam escrito “She´s leaving home” – uma belíssima canção e o retrato de toda uma época.

OS VERBOS “VIR” E “VER”
DO PÉ À CABEÇA

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9 Comentários. Deixe novo

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    Selma Pavone
    maio 4, 2020 5:51 pm

    É bem assim: Jovens que não vão a luta, e que não querem virar adultos.
    Muito boa sua crônica! Adorei o exemplo: “She’s leaving home”.

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  • Avatar
    Angelo Antonio Pavone
    maio 4, 2020 8:55 pm

    Olá Prof Vitor
    Belo texto. Excelente análise sobre a formação de um adulto
    É um trabalho diário (working in progress). Curso para formar adultos: bizarrice dos nossos tempos
    Parabéns

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    Nome: Otavio de Campos Dias
    maio 4, 2020 9:44 pm

    Muitos problemas descritos no texto são de responsabilidade dos pais que tentam blindar os filhos do mundo, e é claro da comodidade dos adolescentes.
    Claro que a grande maioria dos pais não enxerga como problema, tem muitos “galinhas” que querem ter eternos protegidos sob suas asas, sem ao menos entender que isso faz muito mal aos filhos.
    Tenho somente um filho, ao mesmo tempo que mimo e me preocupo incentivo que ele busque sua liberdade e independência.
    Nunca me esqueço quando foi necessário ele com 12/13 anos ir de ônibus da Freguesia do Ó para Pompeia para tratamento.
    Primeiro a pesquisa feita por ele de como fazer, qual ônibus pegar, onde descer.
    Para por a façanha em prática na primeira vez fui com ele, contudo ele que me levou, durante o percurso fui mostrando alguns pontos de referência para que ele soubesse onde estava, na segunda vez ele foi só e eu, sem que ele é soubesse, segui o ônibus e o acompanhei até a clinica, e depois disto ele passou a ir só e sem “supervisão”.
    Hoje ele anda por São Paulo utilizando transporte público e ainda me orienta como fazer nas vezes que vou a algum lugar sem carro.
    Ele ainda não se banca financeiramente, faz faculdade em tempo integral, como trabalho tem alguns alunos de inglês, mas esta no terceiro ano morando sozinho, em outra cidade, e aprendendo a se “virar”, com cozinha e limpeza de casa.

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  • As escolas contribuem com todo esse “mimo”…

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  • Excelente texto, meu amigo! Isso destaca todos os problemas que nós professores enfrentamos durante a nossa carreira. Acho que essa imaturidade tende a aumentar com essa pandemia causada pelo novo coronavírus. Parabéns mais uma vez!

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  • Texto que não só emociona pelo componente subjetivo, mas também traz um tema atualíssimo. Excelente a condução da narrativa e a reflexão proposta!

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  • Meu caro Vítor,
    De fato, há poucos adultos de verdade no mundo e os políticos se aproveitam disso. Mas temos também jovens como Greta Thunberg, que surge como estrela em meio a tantos adultos infantilizados.
    A verdade cura, mas fere; a maioria prefere, no entanto, o brilho vulgar da hipocrisia.
    Grande abraço!

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    Clarice keri
    maio 9, 2020 7:07 pm

    Muito bom como sempre, uma leitura que serva para nós fazer pensar, obg

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    Baltasar Pereira
    maio 14, 2020 1:05 pm

    Esta Crônica mostra aspecto moderno da nossa Sociedade.

    Os jovens que demoram em crescer e Ver a Vida como ela realmente é fora de suas casas.

    Hj todos conectados e dependendo da INTERNET ou dos Pais para resolver pequenas questões.

    Preocupados quantos “Amigos” deram Like em suas postagens.
    Muito interessante esta Crônica sobre nossos Eternos Jovens Adolescentes.
    Desperta a vontade de ler mais sobre este assunto.

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