A FORMAÇÃO DE ALGUMAS PALAVRAS EM PORTUGUÊS

 

No dia a dia, não prestamos atenção à origem das palavras que usamos em nossas conversas e bate-papos. E muitas delas trazem alguns pontos bem interessantes.

Ao estudarmos os Processos de Formação de Palavras, estudamos a chamada “Aglutinação”, isto é, quando palavras se fundem mediante alguma alteração para a formação de um novo vocábulo.Um exemplo bastante simples desse processo vem a ser a formação de “pernilongo” – é óbvio que o termo vem da junção de “perna” + “longo”, originando o nome do mosquito.

Menos óbvios são alguns outros exemplos. Lembro-me com muita clareza de uma aula de Latim do professor Paulo no meu curso de Letras no Mackenzie. Alguém da classe perguntou a ele a origem do pronome “você” e ele nos explicou a longa caminhada até chegarmos a essa palavra. O professor esclareceu: “Esse pronome vem de ‘vossa mercê’, que virou vossemecê, depois vosmecê, vosmecê, vancê e, finalmente, você”. Penso, contudo, que, nesse processo, a “aglutinação” não foi a única responsável. Não nos esqueçamos de que, na fala, procuramos sempre a rapidez e a lei do menor esforço. Tanto é assim que já adotamos a forma “cê” no linguagem coloquial: “Cê vai ao cinema?”, “Cê gostou do filme?”, e o “i” na forma do plural: “Ceis vão viajar nas férias?”. Observem como falamos com nossos amigos: “Cetabém?”. Fica estranho quando se coloca no papel, mas é exatamente assim que falamos!

Outro termo cuja origem é bastante interessante: “sacrifício”. “Sacrifício” vem de “sacro” (sagrado) + “ofício”, ou seja, todo sacrifício traz, segundo a tradição religiosa, algo de divino e transcendente. Em algum momento de nossa história como falantes, o termo passou a designar aquilo que é penoso, cansativo, que exige um esforço tremendo e que, por

isso mesmo, não é agradável. Bem diferente, portanto, do seu sentido original, ao que me parece.

Dois vocábulos relativos à boca merecem uma observação. O primeiro deles é o adjetivo “boquiaberto”, formado, claro, por “boca” (“boqui”) + “aberto”, qualidade de quem se acha “perplexo”, “embasbacado”, “surpreso” ou “cheio de admiração”, segundo o Houaiss. Aquele sujeito que está de “queixo caído” sem acreditar no que vê!

O outro termo vem a ser “boquirroto”. Vamos nos lembrar, antes de tudo, que o particípio irregular do verbo “romper” é “roto” – lembram-se de como é “podre” em inglês? “Rotten”. Bem, o “boquirroto” é aquele de “boca aberta”, que “não consegue guardar segredos”, é um “fofoqueiro”, um “tagarela”, talvez porque sua boca esteja metaforicamente “podre” e propensa a maledicências e difamações.

Vejamos agora o que acontece com “ventríloquo”. Esse artista é aquele capaz de falar sem que ninguém perceba o movimento de seus lábios. Muito bem. A palavra tem origem também no latim: é a junção de “ventre” (abdômen) + “loqui” (falar, dizer, narrar). Assim, essa pessoa tem o poder de fazer com que sua voz venha do seu aparelho fonador sem precisar movimentar os lábios. Alguns dicionários definem o termo como “barriga falante”… é por aí.

Por falar em partes do corpo, “cabisbaixo” é um outro exemplo bacana. O termo, logicamente, vem da junção de “cabeça” + “baixo” para designar alguém que esteja “triste”, “desanimado”, ou mesmo “humilhado” e “envergonhado”. Encontramos esse adjetivo com frequência em livros mais clássicos de nossa literatura. Hoje, poucas pessoas sabem empregar o termo. Uma pena!

Os exemplos são muitos. Vão de “planalto” (“plano” + “alto”) até “fidalgo” (“filho” + “de” + “algo”), passando por “embora” (“em” + “boa” + “hora), “vinagre” (“vinho” + “acre”) e o advérbio “destarte” (“desta” + “arte”), que significa “assim”, “desse modo”, ainda bastante utilizado em documentos oficiais como requerimentos, petições, cartas, contratos etc.

Uma história interessante para encerrar este texto. Durante o meu mestrado, conheci um rapaz de Belém do Pará que estava na USP pesquisando para sua dissertação. Acho até que seu trabalho estava mais adiantado que o meu: ele estava fazendo o levantamento do “Vocabulário da Cachaça no Brasil”. Um dos nomes da cachaça, como todo o mundo sabe, vem a ser “aguardente” (aglutinação de “água” + “ardente”). O que eu não sabia era a origem de um outro termo que eu ouvi bastante na minha infância, passada na periferia de São Paulo – por que a cachaça é chamada de “branquinha” por muitos?

O rapaz paraense me explicou: “O termo vem desde os tempos da escravidão no Brasil. Os escravos comparavam o prazer que tinham com a cachaça com o prazer que poderiam ter com a filha do dono do engenho, a branquinha. Daí, a analogia que persiste até hoje em muitos locais do Brasil, incluindo São Paulo. Poucos sabem disso, mas muitos utilizam o termo”.

Sinto muito ter perdido contato com aquele rapaz. Espero que tenha concluído seu trabalho e defendido sua dissertação com sucesso.

De minha parte, vivendo e aprendendo!

15 DE OUTUBRO
SÃO PAULO

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5 Comentários. Deixe novo

  • Avatar
    Angelo Antonio Pavone
    outubro 24, 2019 8:33 pm

    Olá Prof Vitor
    Belo texto
    É bom saber a origem das palavras
    para poder emprega-las corretamente.
    Parabéns

    Responder
  • Avatar
    Edilson Cardoso
    outubro 24, 2019 9:22 pm

    Da minha também, vivendo e aprendendo, sempre! Do jeito que estamos, espero que o termo branquinha não seja motivo de CACHAÇAFOBIA.
    Professor Vitor sempre nos trazendo temas interessantes.

    Responder
  • Muito boa e muito divertida essa crônica!! E sempre aprendendo com o professor Vítor!

    Responder
  • Realmente não ficamos ligados com a formação das palavras, mas o seu texto faz esse destaque com muita precisão e simplicidade. 👋

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  • Sempre gostei da matéria de Linguística na faculdade, mais q interessante, educativa, amei, obrigada Vitor.

    Responder

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