A FÁBULA E O APÓLOGO

A fábula pode ser definida como uma história curta, protagonizada por animais e que traz uma moral explícita ou implicitamente. Utilizando-se da Personificação – atribuição de características humanas a animais, objetos e elementos da natureza – essa narrativa cria um universo mágico, fantástico e sedutor. Quem nunca se encantou por uma fábula?

Na antiguidade, o grande expoente do gênero foi Esopo. Escravo grego na Ásia Menor, por volta do século V a.C., Esopo trabalha na lavoura; depois, torna-se “escravo doméstico” de um filósofo na Ilha de Samos. Quando, finalmente, consegue sua liberdade, revela-se um exímio orador em auditórios e assembleias. Possuía, segundo seus biógrafos, um físico disforme para os padrões que se julgam belos – era muito barrigudo, tinha uma cabeça grande, nariz achatado, corcunda, negro, baixo, manco, vesgo e de lábios muito grossos. Sua aparência, contudo, não impediu a manifestação de sua inteligência, frequentemente irônica e cáustica.

São dele textos como “A Raposa e as Uvas”, “A Cigarra e a Formiga” ou “A Lebre e a Tartaruga”, para citar alguns dos mais famosos. Há uma fábula de Esopo, porém, que poucos conhecem e que vem a ser uma de minhas favoritas – “O Urso e os dois Viajantes”. Ela diz assim:

Dois amigos estavam viajando juntos quando de repente deram de cara com um Urso. Um dos homens rapidamente subiu numa árvore, escondendo-se entre os galhos. O outro, vendo que não havia qualquer chance de fuga, caiu estendido no chão, e, quando o Urso chegou perto e o examinou com seu focinho, o homem prendeu sua respiração e fingiu-se de morto.

 O Urso pareceu dizer alguma coisa, mas logo foi embora. Quando a fera estava longe, o que estava na árvore desceu e, em tom de zombaria, perguntou ao amigo: “O que foi que o Urso sussurrou no seu ouvido?”. “Bem”, o que estava no chão respondeu, “ele me deu um conselho: tome cuidado com amigos que o abandonam quando você está em dificuldades”.

Tempos difíceis testam a sinceridade de uma relação.

O texto, como se pode ver, é simples em sua forma, mas muito interessante em seu conteúdo. E há muitas, muitas histórias com as quais Esopo brilha até hoje. São enredos para adultos e crianças, sem a bobagem de limite de idade.

Muito mais tarde, no século XVIII, foi a vez de o francês La Fontaine se destacar com suas histórias, compondo outras fábulas bastante marcantes e conhecidas até hoje.

Textos de ambos os autores são encontrados facilmente na internet. Existem vários livros também que contribuem para que eles não sejam esquecidos em tempos de tanta rede social e de tão pouca literatura de boa qualidade.

Já que falei de fábulas, vou me estender um pouco e falar sobre o apólogo. Os dois se assemelham bastante: são  concisos, claros em suas mensagens, e, como também em literatura tamanho não é documento, podem ser muito expressivos apesar de breves. A diferença é que, no apólogo, encontramos normalmente a Personificação de elementos como plantas, pedras, rios, relógios, carros, livros etc.

Vários autores exploraram esse tipo de narrativa, mas o apólogo mais conhecido de nossa literatura vem a ser a pequena e profunda história escrita pelo mestre Machado de Assis, no século XIX.

Em “Um Apólogo” (também conhecido como “A Agulha e a Linha”), nosso escritor maior nos faz pensar em temas como a vaidade, o orgulho, a ingratidão, as futilidades da vida para as quais damos valor exagerado, a experiência adquirida com a dor etc. Texto clássico, vale a pena sua leitura.  Ele chama a nossa atenção para a “sabedoria do alfinete” e para a lição do “professor de melancolia”. Ensinamentos para toda a vida. Vamos à história?

 

UM APÓLOGO

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados…

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando…

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto…

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana* — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima…

A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha, era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora! agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: — Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: — Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

                                  (Várias Histórias, 1896)

 

*galgos = cães de pernas compridas, extremamente velozes.

*Diana = deusa da caça.  

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