A ARTE DE ESCREVER CARTAS

Ontem, revi um filme maravilhoso, desses que a gente vê ao longo dos anos repetidas vezes, mostra aos amigos e se delicia com cada repeteco e com a cara de satisfação da pessoa a quem apresentamos a história – “84 Charing Cross Road”, de 1986 (no Brasil, o título feioso de “Nunca te vi, sempre te amei”).

O título original remete ao endereço de uma livraria de Londres importante na trama. Lá, trabalha um inglês (Frank Doel), personagem interpretada magistralmente por Anthony Hopkins, homem dedicado a seus clientes e que acaba mantendo uma correspondência com uma escritora americana (a mal humorada Helen Hanff) – papel da estupenda Anne Bancroft – por muitos anos. Ela, na impossibilidade de viajar à Inglaterra, encomenda livros e mais livros; ele, britânica e cordialmente, vai atendendo aos pedidos da amiga do outro lado do Atlântico.

Caso o prezado leitor nunca tenha visto essa obra, dê um jeito nisso. É um filme muito bonito!

Bem, enquanto eu o via pela centésima vez (a primeira foi no cinema), fiquei pensando em como escrever cartas tornou-se uma atividade obsoleta e praticamente desconhecida pelas gerações de jovens após o advento do e-mail e do whatsapp. Não discutirei aqui a praticidade e a rapidez conquistadas com tais recursos, mas ficou em mim uma ponta de tristeza e melancolia ao pensar que hoje não se guardam mais papéis que diziam tanto sobre uma amizade, um namoro ou mesmo um casamento.

É muito raro ouvir-se que alguém imprimiu um e-mail de um amigo, mesmo porque trocam-se mensagens via computador e via celular em uma quantidade absurda para que se imprima tudo. Muito acaba sendo esquecido numa “caixa de entrada”, muito se perde quando um computador ou um celular “dão pau”.

Lembro-me de que o antigo vestibular da Unicamp era o único que regularmente oferecia a opção de carta em sua primeira fase. Os candidatos tinham três opções – dissertação, narração ou carta. Dispensável dizer que a opção de carta era a menos escolhida pelo que meus alunos me diziam. E mesmo os exercícios sobre essa modalidade de redação eram atividades para os quais os alunos não se dedicavam muito. Escrever cartas, para eles, era uma coisa inútil: “Professor, para que escrever cartas? Não é mais fácil pegar o telefone e falar com a

pessoa?”. Até explicar que, num passado não muito distante, telefone era artigo de luxo neste país, eu levava muito tempo.

Um outro filme no qual cartas têm uma importância muito grande é o premiado “Central do Brasil”, de 1998. Nele, Fernanda Montenegro (indicada ao Oscar pelo papel) interpreta uma ex-professora trambiqueira que escreve cartas, sob encomenda, para as famílias de analfabetos – o problema é que ela embolsa o dinheiro sem sequer postar as missivas. Certo dia, conhece Josué e, movida pela compaixão, junta-se ao menino em uma aventura pelo nordeste em busca do pai do rapazinho. Bastante comovente e sensível, o filme recebeu diversos prêmios.

Na literatura, são muitos os casos de escritores que mantiveram longo período de correspondência com amigos e parentes. Mário de Andrade talvez seja o caso mais conhecido: missivista por excelência, trocou centenas de cartas com Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade, entre outros; famosas são as trocas de cartas também entre Clarice Lispector e Fernando Sabino, entre esse escritor mineiro e seu amigo Otto Lara Resende, entre Fernando Pessoa e a namorada Ofélia de Queiroz, entre Jorge Amado e Zélia Gattai, entre Monteiro Lobato e Lima Barreto, entre Machado de Assis e Joaquim Nabuco, de Graciliano Ramos à sua segunda esposa, Heloísa – para ficarmos somente entre os de língua portuguesa.

Se formos passear por outras veredas, encontraremos cartas belíssimas de Van Gogh ao irmão e confidente Theo; cartas intensas e dolorosas de Florbela Espanca ao irmão e ao segundo marido; a correspondência mantida por 25 anos entre a escritora inglesa Viginia Woolf e o crítico literário Lytton Strachey… são muitos os exemplos.

Sempre achei fascinante “estudar” alguém pelas cartas que essa pessoa escreveu e para quem ela escreveu. Muito se revela pelas linhas às vezes íntimas, às vezes tolas e às vezes tristes de um texto dirigido não ao grande público, mas a um destinatário em especial, um destinatário a quem se confiam segredos da alma. Acho que aprendi mais sobre Vinicius de Moraes lendo sua correspondência do que estudando seus versos na faculdade. Entendi melhor a introversão de Graciliano Ramos quando tomei contato com suas confissões amorosas a Heloísa. Compreendi mais o drama e a dor de Lima Barreto por meio das cartas que Monteiro Lobato lhe escreveu e que nem sempre obtiveram resposta, pois o escritor carioca, doente pelo alcoolismo, não tinha condição alguma de falar ao amigo paulista.

Quando dava aula em cursinho, eu selecionava sempre quatro ou cinco cartas de amor de pessoas conhecidas do mundo das artes ou da política para mostrar ao alunos o que fazia de uma carta um texto

interessante. Para eles, como eu disse, esse era um gênero redacional muito distante da realidade, pois não conseguiam se imaginar escrevendo, envelopando, postando no correio, aguardando sua chegada ao destinatário e a resposta deste no caminho inverso. “Ah, professor, nesse tempo todo já escrevi centenas de zap zap”.

Uma das cartas mais intensas e dolorosas que escrevi em minha vida data dos meus 22 anos. Era hora de sair da casa de meus pais para seguir meu próprio rumo, para crescer e levar minha própria vida. Minha mãe, claro, foi a que mais sentiu. Tive de lhe explicar que eu saía não porque não os amasse, mas porque eu precisava me encontrar e encontrar meu lugar no mundo. Escrevi chorando e tenho certeza de que foi lida assim também por ela.

Há muito tempo que não recebo cartas – e há muito tempo que não as escrevo com regularidade. Gosto, porém, de escrevê-las sempre que dou um presente a um amigo querido. Acho que o carinho e a ternura de um presente se realçam quando acompanhadas por um texto sincero, delicado e afetuoso.

A propósito: em 2010, voltei a Londres com um grande amigo que conhecia a cidade melhor do que eu. Pedi a ele que me levasse ao número 84 da Charing Cross Road. Na manhã daquele dia, acordei pensando no filme e na história (real) que ele contava. Eu já sabia que a livraria não existia mais, contudo o endereço valia uma foto. Fiquei pensando em todas aquelas almas que saíram de lá satisfeitas por terem encontrado o livro que desejavam, em todos aqueles seres felizes por poderem procurar e encontrar um livro para si mesmos ou para seus entes queridos – pessoas que vieram e se foram, deixando dedicatórias e páginas marcadas nos textos de grandes autores.

Por mais que eu soubesse de sua extinção, senti uma certa tristeza: no lugar da livraria imortalizada pelo filme, encontramos uma moderna e insípida loja de departamentos…

Não tive vontade de entrar.

Sugestões para quem se interessa por cartas

Livros:

AMADO, João Jorge – Toda a saudade do mundo – A correspondência de Jorge Amado e Zélia Gattai, São Paulo, Cia. das Letras, 2012.

ARANHA, Graça – Machado de Assis & Joaquim Nabuco – Correspondência, Rio de Janeiro, Topbooks, 2008.

CAVALHEIRO, Edgar – A correspondência entra Monteiro Lobato e Lima Barreto, Rio de Janeiro, Verso Brasil Ed., 2017.

LISPECTOR, Clarice et SABINO, Fernando – Cartas perto do coração, Rio de Janeiro, Ed. Record, 2014.

LISPECTOR, Clarice – Minhas queridas, Rio de Janeiro, Rocco, 2007.

MORAES, Vinícius – (org. Ruy Castro) – Querido poeta – A correspondência de Vinícius de Moraes, São Paulo, Cia. das Letras, 2003.

ORSINI, Elisabeth – Cartas do coração, uma antologia do amor, Rio de Janeiro, Rocco, 1999.

PIAF, Edith – Cartas de amor, São Paulo, Amarilys, 2011.

RAMOS, Graciliano – Cartas de Amor a Heloísa, Rio de Janeiro, Record, 1994.

RESENDE, Otto Lara – O Rio é tão longe – Cartas a Fernando Sabino, São Paulo, 2011.

USHER, Shaun – A correspondência inesquecível de pessoas notáveis, São Paulo, Cia. das Letras, 2013.

ESPANCA, Florbela – Afinado desconcerto (contos, cartas, diário), São Paulo, Ed. Iluminuras, 2002.

Filmes:

A Carta (The letter), Bette Davis, Herbert Marshall, 1940, dir. William Wyler

Carta de uma desconhecida (Letter from an unknow woman), Joan Fontaine, Louis Jordan, 1948, dir. Max Ophuls.

Cartas de Iwo Jima (Letters from Iwo Jima), 2006, Ken Watanabe, Kazunari Ninomyia; dir. Clint Eastwood.

Central do Brasil, 1998, Fernanda Montenegro e Vinícius de Oliveira; dir. Walter Salles.

Ligações Perigosas (Dangerous Liaisons), 1989, Glenn Close, John Malkovich, Michelle Pfeiffer; dir. Stephen Frears

Minha vida sem mim (My life without me), 2003, Mark Ruffalo, Sarah Polley, dir. Isabel Coixet

Nunca te vi, sempre te amei (84 Charing Cross Road), 1986, Anne Bancroft, Anthony Hopkins, dir. David Jones.

Querido Frankie (Dear Frankie), Gerard Butler, Emily Mortimer, 2005, dir. Shona Auerbach

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11 Comentários. Deixe novo

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    Ricardo Leme Szulc
    julho 17, 2019 5:34 pm

    Leitura muito agradável! Parabéns, grande amigo!

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    Rodrigo Baldan
    julho 17, 2019 5:37 pm

    Ótimo texto!
    Interessante, leve e agradável. Adorei!!! 😃

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    Baltasar Pereira
    julho 17, 2019 6:42 pm

    Viajei pelas palavras deste Texto e como vi os dois filmes citados, novamente viajei através da minha memória. Muito bom o texto.

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    ANGELO ANTONIO PAVONE
    julho 17, 2019 7:35 pm

    Prezado Prof. Vítor
    Magistral o seu texto. Eu sempre gostei de escrever cartas. Mesmo que fosse para uma empresa produtora de certo eletrodoméstico que por algum motivo não funcionava, lá estava eu escrevendo um longo texto reclamador. Enfim, outros tempos.
    Muito grato pelo texto.
    Grande abraço

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    Roberto Biasoli
    julho 17, 2019 10:30 pm

    Quando leio as suas crônicas, tenho muitas boas recordações. Quantas cartas escrevi para os meus pais e para a minha esposa entre 1982 e 1985, época que estudei em Botucatu durante a minha graduação. Parabéns, meu amigo! Abraço, Bob

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  • Esse texto me remete há muito tempo atrás, época em que enviávamos cartões de Natal e Ano Novo, enviei e recebia muitos, hoje temos a rapidez do whats e outros aplicativos. Tive o privilégio de assistir ao filme mencionado pelo Professor Vitor, “84 Charing Cross Road”, que aliás, foi ele quem me indicou. Uma viagem no tempo, filme prazeroso tão bem interpretado por Anthony Hopkins e Anne Bancroft. Creio que deveríamos voltar um pouco ao tempo e passarmos a escrever mais, principalmente quando presenteamos alguém. Fica a dica, inclusive pra mim.

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    Dave Pimentel
    julho 18, 2019 1:25 am

    Podemos escrever cartas um para o outro?
    Fiz isso até os meus 23 anos com muita insistência. Daí, o e-mail me venceu.

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    Omar Fadil Bumirgh
    julho 18, 2019 5:12 pm

    Mais um texto sensível, leve e maravilhoso do mestre Vítor.

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  • Adorei! Um texto leve, gostoso de ler, cheio de idéias para ler livros ou assistir filmes! Muito legal!! Também escrevi muitas cartas…

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  • Muito legal! Eu também escrevi muitas cartas.
    Não mais… Adorei ler o seu texto, leve, divertido e
    com referências a livros e filmes inesquecíveis! Como sempre, adorável!

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  • Vitor, que beleza. Que delicadeza. Belo texto a respeito da palavra que nos torna verdadeiramente humanos. E quantas dicas preciosas… Muito obrigado.

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