A LÍNGUA E A CRIATIVIDADE POPULAR

 

 

Conheci um amigo na faculdade que, desde criança, tinha o hábito de colecionar frases de para-choques de caminhões. Ele me explicava que, tendo vivido muito tempo em uma cidade do interior (não me lembro qual), perto de postos de gasolina e perto de estradas, ele e o irmão mais velho adoravam ficar lendo as mensagens dos caminhoneiros – nos para-choques e, muitas vezes, no próprio para-brisa.

Certa vez, mostrou-me um caderno no qual havia anotado muitas e muitas dessas frases, e eu me recordo de que rimos bastante não só com a criatividade, mas também com a mensagem em si – ora pendendo para a malandragem, ora para o duplo sentido sexual, ora para a ternura e por aí afora.

Eu estava revirando antigas pastas aqui em casa e acabei encontrando algumas frases que anotei do caderno desse meu amigo, que, infelizmente, nunca mais vi.
E, novamente, dei boas risadas…

As primeiras delas, atualíssimas, são simples e mandam o recado direto, tão valioso nos dias de hoje: “Viva a sua vida e deixe a dos outros” e “Aos que falam de mim pelas costas, obrigado. É sinal de que estamos sempre na frente”. Fiquei pensando em um caminhoneiro cansado de gente bisbilhoteira, talvez vizinho de gente fofoqueira que não lhe dava descanso, metendo o bico em sua vida e falando mal de sua família na vizinhança. Gente maldosa assim é um clássico, e pode ser encontrada em qualquer parte do mundo infelizmente.

Um outra, na esteira das anteriores, dizia coisa semelhante, mas com tantos erros de grafia que pensamos, meu amigo e eu, que talvez tivesse sido escrita daquela maneira de propósito, para afrontar, para indignar ou para fazer rir mesmo: “É facio falar de mim. Dificio fazer o que eu faso”. Recado dado!

As frases românticas também marcavam presença. Havia desde aquelas bem sentimentais, retratando o quotidiano triste do caminhoneiro que vive mais na estrada do que em casa, até aquelas bem humoradas. “É triste a dor do parto, mas tenho que partir”. Genial! “Não é pressa, é saudade”. Bonita! “Meu coração só tem um habitante: você”. “Difícil não é viajar – é viver longe do lar”. E esta: “No dia em que chover mulher, quero uma goteira na minha cama”.

Claro que não poderiam faltar aquelas mais filosóficas, aquelas que põem as pessoas para pensar em plena estrada ou no estacionamento do restaurante da rodovia: “Pobre é igual pneu: quanto mais trabalha, mais liso fica”, ou “Amor é igual à fumaça: sufoca, mas passa”. “A fortuna faz amigos e a tristeza prova se eles existem mesmo”. E “Se ferradura desse sorte, burro não puxava carroça”. Só rindo!

Fui lendo uma lista enorme, nem me lembrava de que eram tantas. E a gente fica pensando de onde vem tanta criatividade com as palavras! Como professor, creio que seria possível dar um curso de português baseado unicamente na inventividade e na habilidade com que essas frases são construídas.

As de cunho político, também, sempre se fazem presentes. Na lista, encontrei “É pelos buracos da rua que se conhece o prefeito da cidade” ou “Pra político corrupto que tá se afogando, jacaré é tronco”. Outra muito boa: “Se o horário oficial é o de Brasília, por que temos de trabalhar de segunda a sexta?”.  E tem também a mais clássica de todas, aquela que retrata a revolta do povo com tanta falta de vergonha e desfaçatez por parte dos políticos deste país: “Vote nas putas, porque nos filhos não deu certo”. Paulada!

Há aquelas metalinguísticas, isto é, que falam sobre o próprio ofício do caminhoneiro e sobre seu dia a dia. Uma das mais bacanas que encontrei foi “Se correr, o guarda multa. Se parar, o banco toma”. E esta: “Eu sonhava em ter um caminhão. Agora, nem durmo”. E aquele que todos conhecem: “Feliz foi Adão, que não teve sogra nem caminhão”.

E, logicamente, retratando toda a religiosidade do brasileiro, existem numerosas frases de para-choques referentes a Deus, santos de devoção do caminhoneiro ou mesmo trechos de orações. Todo o mundo já viu “Dirigido por mim, guiado por Deus”, mas eu não me lembrava de “O mordomo se safou, agora a culpa é sempre de São Pedro”. Muita boa! Mais uma: “Deus é joia; o resto e bijuteria” ou “Muitos me seguem, mas só Deus me acompanha”. Outra: “Nossa Senhora me guia na estrada pra eu encontrar minha senhora em casa”.

Uma das mais originais, e também das mais ingênuas, faz alusão à religiosidade, à simplicidade e à esperança do homem humilde que vive na estrada, muitas vezes cansado, com sono, sentindo a saudade da família, da sua cama e da sua casa. É uma frase simplória, mas repleta de sentimento e de fé: “Amanhã, quando eu acordar, Deus estará comigo. Se eu não acordar, estarei com Ele”.

Voltando aos políticos, muito poucos poderiam afirmar isso no Brasil.

 

 

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5 Comentários. Deixe novo

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    Angelo Antonio Pavone
    julho 31, 2020 2:37 pm

    Olá Prof Vitor
    Belo texto
    Homenagem singela à alma humana. Sensível e bem humorada
    Parabéns

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  • Com a leveza que é característica do autor, mais um texto que combina, equilibradamente, elementos da língua com situações constituídas pelo falante e constituintes deste. Excelente!

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  • Avatar
    Baltasar Pereira
    julho 31, 2020 8:19 pm

    Realmente a Criatividade inspira as pessoas que criam estas frases e como é gostoso ver a sabedoria contidas em muitas delas e até a simplicidade.
    Gostei do apanhado das diversas frases.
    Algumas eu já conhecia e não me lembrava.
    Outras nunca tinha ouvido falar.
    O gostoso é que muitas delas retratam o País atual em suas diversas facetas.
    Bela Crônica e Bela Homenagem a estes guerreiros e guerreiras que são os que desbravam o Brasil e o Mundo pelas estradas da Vida.
    👏👏

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  • Excelente artigo! O prof. Vítor sempre nos surpreende com os seus textos!

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    Selma Pavone
    agosto 4, 2020 9:01 pm

    Que ótima sua crônica, me divertir com sua imaginação de ir buscar na criatividade dos camioneiros tantas verdades, principalmente quando se refere aos políticos. Adorei!

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