SÍMBOLOS E HINOS

 

 

Entrei na escola em 1971, com sete anos. O AI-5, portanto, era um jovem com todo o seu esplendor, bem como o regime que se iniciara em março de 1964. Na presidência, tínhamos o senhor Emílio Garrastazu Médici, com seus assustadores olhos claros (azuis ou verdes?), cujo retrato podia ser visto nos corredores de todos os estabelecimentos de ensino. Figura intimidante…

Em função do governo militar, muita coisa era diferente naquela época. Uma de minhas mais fortes lembranças diz respeito aos dias que iam de 1º a 07 de setembro – a “Semana da Pátria” -, quando tínhamos de fazer faixas em verde e amarelo nas páginas de nossos cadernos, faixas que atravessavam a folha em sinal de respeito e homenagem ao país.

Por falar em respeito, era um tempo em que tínhamos de ficar de pé sempre que a diretora vinha dar algum aviso – vacinação, mudança de uniforme, reunião de pais e mestres etc. – e ficávamos lá, de pé e em silêncio, até que ela se retirasse da classe. Tínhamos um respeito imenso pelos professores – medo mesmo de punições como advertências e suspensões. Teríamos de prestar contas em casa se isso acontecesse…

As aulas de Educação Moral e Cívica eram repletas de textos a serem copiados da lousa, nos quais o professor falava de direitos, deveres e… dos Símbolos Nacionais.

Tínhamos que conhecê-los para as provas, mas, sobretudo, tínhamos de conhecê-los porque isso demonstraria respeito à pátria e à cidadania brasileira! A Bandeira, o Selo Nacional, o Brasão e o Hino Nacional Brasileiro. Isso sem falar nas datas mais importantes, como o 21 de Abril (Tiradentes), o 22 de Abril (descobrimento do Brasil), o 7 de setembro (Independência), o 15 de Novembro (Proclamação da República) e o 19 de Novembro (Dia da Bandeira).

Todos os dias de manhã, antes de entrarmos em aula, tínhamos que, a plenos pulmões, cantar o Hino Nacional Brasileiro, que, antes, era ensaiado e analisado pelo professor. A molecada não entendia nada de sua letra, mas cantava com medo de ser pego em silêncio. Pra falar a verdade, o mesmo acontecia com o Hino à Bandeira, com o Hino da Independência (que a gente cantava escondido “Japonês tem cinco filhos…”) e com o Hino à República.

O hasteamento da bandeira era outra solenidade cheia de pompa e circunstância!

Lembro da proibição de se estampar a bandeira em camisetas, tênis e bonés. Eu não entendia por que os americanos podiam fazer isso e nós, não. Víamos em tudo o que era filme, mas isso era proibido aqui. Como era proibido assoviar o Hino Nacional, como era proibido não saber quais eram as capitais dos estados brasileiros e quais eram os territórios – coisa que nem existe mais.

Proibições em cima de proibições; ameaças de punição em cima de ameaças de punição para a molecada na escola. Tudo era visto como natural por nós, crianças que iniciaram sua vida escolar sob a austeridade exagerada e a vigilância desmedida com que éramos conduzidos. Lembro-me de ter tido, mais tarde, já no antigo ginásio, disciplinas como OSPB (Organização Social e Política do Brasil), sem falar na Geografia e na História que os professores eram obrigados a dar, exaltando as belezas e exuberâncias do país.

Hoje, homem já formado, também professor e ciente do que acontecia naqueles chamados Anos de Chumbo do governo Médici, entendo por que tínhamos de fazer aquilo tudo, por que tínhamos de aprender aquilo tudo – fazia parte, logicamente, da uma propaganda ufanista que precisava vender a imagem de um país que, segundo a ditadura, caminhava a passos largos para o progresso e para a grandiosidade. Na TV, no rádio, na imprensa escrita, na escola, tudo era importante para que se acreditasse no gigantismo brasileiro. Era a época do tal do Milagre Econômico.

Fico pensando em quanto nossos professores tiveram que se esforçar para não dizerem o que realmente acontecia por a   qui: a luta armada, o enfrentamento entre os militares e os guerrilheiros, a censura etc. O professor Marco António Villa tem um livro ótimo sobre o período – “Ditadura à Brasileira – a democracia golpeada à esquerda e à direita”.

Hoje, eu dizia, homem formado e professor, vejo que nossos alunos não conhecem nada disso. Há não muito tempo, perguntaram para um amigo meu, professor de História do Brasil em um cursinho pré-vestibular, o que havia acontecido primeiro: a Inconfidência Mineira ou a Ditadura Militar?

Muitos conhecem o Hino Nacional “por cima”, porque ouvem em jogos de futebol e em outros eventos esportivos. Para eles, o maior símbolo nacional é a camisa da Seleção Brasileira, um time que há muito não tem carisma nem personalidade!

Obviamente, acho tudo aquilo por que passei na escola nos anos 70 um horror: proibições, punições, censura, crianças tendo que se comportar como militares em sala de aula, professores muitas vezes abusando de sua autoridade, diretores gritando em nossos ouvidos no pátio… a gente tendo que, com sete ou oito anos, decorar a letra de hinos incompreensíveis para aquela idade… tudo isso era um absurdo… mas também acho ruim que não se ensinem mais algumas daquelas coisas.

Acho triste que a moçada não aprenda, de modo civilizado, a interpretar a letra dos hinos, não conheça as datas (somente o 7 de setembro), não saiba, por exemplo, músicas como a “Canção do Expedicionário” (letra de Guilherme de Almeida e música de Spartaco Rossi) em homenagem à FEB na II Guerra Mundial… bonita canção, aliás!

Tudo é bobagem, tudo é coisa velha. Uma amiga minha veio me contar que estava dando uma aula sobre Parnasianismo, para adolescentes de 17 anos, e comentou que Olavo Bilac havia escrito também o “Hino à Bandeira”. Atônito, um aluno levanta a mão e pergunta: “Professora, existe um hino pra bandeira?”.

Somos uma nação de extremos. Vamos sempre, como dizia minha mãe, “do 8 pro 88, sem ficarmos num 44 bom para todos”. Ela dizia isso quando éramos crianças, e hoje entendo o que ela queria dizer.

Sim, somos um país de extremos… e isso raramente é uma coisa boa.

 

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A VÍRGULA

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