SÃO PAULO

 

“São Paulo não ficou europeia, nem americana, nem brasileira.” Décio Pignatari (1927-2012), poeta, em 2000, à Folha de S. Paulo.

Um grande amigo me envia, pelo whatsapp, uma foto da rua Barão de Itapetininga, datada de 1961. Uma outra amiga muito querida, coincidentemente, faz algo semelhante e me manda uma foto da avenida São João, também daquela década. Eles sabem do amor que tenho por esta cidade maltratada e suja e sabem como eu gostaria de ter conhecido esta metrópole antes dos anos 70, quando, penso eu, começou toda a decadência que hoje presenciamos.

Certa vez, eu dizia em sala de aula a propósito de um tema de redação de vestibular, que podemos sentir saudade até do que não vivemos ou presenciamos. Para mim, bastam fotos e filmes para despertar meu sentimento de nostalgia por aquilo que outros viveram e que não faz parte de minha história de vida propriamente dita.

Meus avós e meus pais costumavam contar aos netos e filhos como era “ir ao centro da cidade”, ocasião em que se devia “vestir a melhor roupa”, as mulheres com seus melhores vestidos e os homens de terno e gravata, muitos de chapéus e sapatos bem engraxados. Devo concordar com o leitor que, neste instante, deva estar pensando na extrema formalidade e talvez na falta de conforto que essas roupas provocavam, principalmente em dias de intenso calor. Não devia mesmo ser fácil enfrentar o sol debaixo de tanta roupa… mas gosto de pensar na elegância das pessoas e dos estabelecimentos comerciais e gosto de ver, nas fotos e filmes, a limpeza das ruas.

Às vezes, eu me sento com meu irmão para assistirmos a filmes brasileiros antigos cuja qualidade nem é lá essas coisas, simplesmente porque podemos ver uma cidade que

não existe mais! E somos tomados de muita saudade… daquilo que não vimos!

Meus primeiros contatos com o centro – eu, que sempre vivi na periferia, do “outro lado do rio Tietê” – começaram com idas aos cinemas, sempre acompanhado de meus pais, sobretudo minha mãe, nos anos 70, quando a coisa já havia começado a azedar em termos de segurança e beleza. Nossos pais não viam com muita simpatia nossos passeios para o centro. Depois que fizéssemos 18 anos, tudo bem.Quando me tornei office-boy, comecei a dominar as ruas e avenidas paulistanas, mas isso é assunto para uma outra crônica que eu pretendo escrever em breve.

Voltando às fotos que meus amigos me enviaram, vê-se uma cidade onde as pessoas parecem caminhar tranquilas pelas calçadas limpas, livres de tanta gente que tenta ganhar o pão de cada dia vendendo de tudo, ambulantes que tentam sobreviver neste Brasil de meu Deus onde o desemprego atinge índices vergonhosos para um país com este potencial.

Nas fotos, vejo praças “com cara de praça”, isto é, arborizadas, bancos limpos onde uma mãe podia tomar um sorvete com seu filho pequeno depois de uma sessão qualquer de cinema, ou mesmo depois de ter ido a alguma loja pagar a prestação de sua televisão, geladeira ou máquina de lavar. Eram mesmo outros tempos, claro! Muita coisa era mais difícil do que é hoje, é preciso que se diga, pois não podemos ser totalmente tomados pelo sentimento de nostalgia e de idealização.

Não posso, contudo, deixar de sentir uma certa pena do que vejo agora – prédios pichados, estátuas e monumentos quebrados, ruas imundas, praças cheias de concreto e pouquíssimas árvores (quando há!), locais antes bonitos agora degradados e deixados à própria sorte.

Parece-me que, hoje, a ideia de diversão está associada à sujeira, ao desleixo, à falta de carinho para com esta cidade tão vilipendiada. Moro perto da Praça Roosevelt há muitos anos. Quando aqui cheguei, ela já não era aquele ponto de

encontro elegante dos anos 60, estava feia, abandonada, perigosa até. Demorou muito para que fosse reformada e ficasse com uma nova cara, menos assustadora. A praça reformada, porém, levou pouco tempo para sentir a ação daqueles que não se importam muito com o espaço comum. Os canteiros de flores, antes cercados por madeira, não estão mais assim: skates destruíram essas “molduras” em menos de um ano… e conheço gente que acha isso menor. Além da perda da beleza, nosso dinheiro foi jogado fora também.

A quantidade de latas e garrafas de cerveja que se encontra diariamente nos degraus dessa praça é enorme e muito triste. Como eu já escrevi, não se concebe diversão sem sujeira e desrespeito a quem mora nas redondezas.

Sinto saudade da segurança e da limpeza; dos cinemas de rua e dos teatros históricos que ajudaram a construir a cara da cidade; do respeito e da formalidade entre as pessoas; sinto saudade de livrarias e cafés onde se podia ler um livro enquanto a tarde caía.

Não sei se Rita Lee ainda é a perfeita tradução desta metrópole, como quer Caetano Veloso em sua canção “Sampa”. Acho que nem ela aguentou viver por aqui e foi viver uma vida bucólica e árcade.

As fotos que meus amigos me mandaram e me mandam são verdadeiros presentes, pois me fazem viajar e ter a esperança de que, se foi assim um dia, pode vir a ser de novo… será?

Da janela do meu escritório, onde escrevo agora, vejo a cidade lá embaixo e a vista que tenho dos prédios iluminados é muito bonita. Gosto de observar as ruas e os automóveis principalmente em dias de chuva, quando parece que a cidade é lavada e sua alma se renova.

E guardo com carinho as fotos antigas que os amigos queridos me mandam. Essa é uma forma que eles encontram de mostrar seu amor por São Paulo e por mim também.

A FORMAÇÃO DE ALGUMAS PALAVRAS EM PORTUGUÊS
ALGUMAS DIFERENCIAÇÕES

Posts relacionados

No results found

7 Comentários. Deixe novo

  • Obrigado pelo texto, relembrei que meu pai ia todos os meses até a Light, ali próximo ao Teatro Municipal e também do Mapim, para receber pelo fornecimento de carne para o acampamento deles que ainda existe na Rua Cajati.
    Em algumas oportunidades fui com ele e realmente era um lugar bonito.
    O prédio era antigo, austero com portas altas e os elevadores contavam com a presença do ascensorista que sempre trajava seu uniforme bem passado e o sapato preto muito bem engraxado.
    Lembro dos engraxates com suas caixas nas costas oferecendo para deixar os sapatos brilhantes.
    É sobre as fotos antigas também gosto contudo as únicas que ainda vejo são as gravadas na memória que acabam por serem novamente reveladas por um texto de muito bom como este.
    Parabéns pela facilidade de colocar o amor na narrativa, e nos facilitar a “revelar” antigas fotos recheadas de boas lembranças, abraços

    Responder
  • Obrigado pelo texto, relembrei que meu pai ia todos os meses até a Light, ali próximo ao Teatro Municipal e também do Mapim, para receber pelo fornecimento de carne para o acampamento deles que ainda existe na Rua Cajati.
    Em algumas oportunidades fui com ele e realmente era um lugar bonito.
    O prédio era antigo, austero com portas altas e os elevadores contavam com a presença do ascensorista que sempre trajava seu uniforme bem passado e o sapato preto muito bem engraxado.
    Lembro dos engraxates com suas caixas nas costas oferecendo para deixar os sapatos brilhantes.
    É sobre as fotos antigas também gosto contudo as únicas que ainda vejo são as gravadas na memória que acabam por ser novamente reveladas por um texto leve e bom como este.
    Parabéns pela facilidade de colocar o amor na narrativa, e nos facilitar a “revelar” antigas fotos recheadas de boas lembranças, abraços

    Responder
  • Avatar
    Edilson Cardoso
    outubro 28, 2019 9:20 pm

    Concordo com você, professor Vitor! A cidade onde resido, Espírito Santo do Pinhal, passa pelo mesmo problema. Mas a cada dia, vejo um esforço tremendo das autoridades para preservar o que temos de bonito. Eu gostaria de ter vivido na época em que os homens usavam seus ternos de linho/linhão, bengalas e chapéus. Já as mulheres, sempre elegantes, também. Meu pai me contava que aos sábados na praça central, onde há o coreto até hoje, os homens passeavam de um lado e as mulheres de outro. Enfim, creio que eu deveria ter nascido em outra época . Quando vejo fotos antigas de São Paulo, da minha cidade querida pra mim é um deleite.

    Responder
  • Avatar
    Angelo Antonio Pavone
    outubro 28, 2019 9:38 pm

    Olá Prof Vitor
    Bela crônica!
    Me fez voltar à minha infância -São Paulo da garoa. Vivi esse tempo. Conheci a Praça Roosevelt da década de 60. O Cine Bijou. O namoro, etc. Outros tempos
    Parabéns! !!!

    Responder
  • Avatar
    Baltasar Pereira
    outubro 29, 2019 7:06 pm

    Eu adoro também ver fotos antigas de São Paulo. Sinto falta de algo que não cheguei a vivenciar.
    Na realidade como nasci em 1966 quando criança vi algo desta antiga Cidade embora com algumas mudanças já ocorrendo.
    Lendo está Crônica posso dizer que tenho as mesmas emoções e sensações que o Cronista deixa aparecer durante toda a escrita.
    Como sempre deliciei-me com a leitura.

    Responder
  • Não vivi a São Paulo elegante da qual nos fala o texto, porém as linhas dessa crônica despertaram-me a nostalgia por aquilo que não conheci. Não tenho dúvidas de que crônicas, como essa, e fotografias como as que o narrador recebeu são formas carinhosas e únicas para mostrar a admiração e o amor que sentimos.

    Muito obrigado pelo texto e pela emoção!

    Responder
  • Crônica ótima sobre essa cidade linda e maltratada, adorei obg

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Preencha esse campo
Preencha esse campo
Digite um endereço de e-mail válido.

Menu