O QUE SÃO VERBOS DEFECTIVOS?

 

Como já tive oportunidade de escrever, os verbos são um dos pontos mais complexos no estudo da língua portuguesa. Muitas vezes, utilizamos uma forma verbal porque ela é agradável aos nossos ouvidos – e ela é condenada pela gramática. Há casos em que rejeitamos determinada forma porque ela nos soa mal – e ela está correta. Todo cuidado é pouco, principalmente quando se trata de um contexto no qual se exija um respeito maior às normas da chamada língua padrão.

As diversas gramáticas classificam como Verbos Defectivos aqueles que não apresentam uma conjugação completa, isto é, não devem ser conjugados em algumas pessoas. Não se deve, porém, esquecer o fato de que as regras gramaticais nem sempre se coadunam com o uso que se faz da língua no dia a dia – a velha questão da escrita, de um lado, e da fala, do outro.

Bem, evitando aqui classificações mais pertinentes à sala de aula, vamos a alguns exemplos úteis para o leitor no seu quotidiano – algumas formas verbais que devem ser evitadas pelo menos em situações mais formais de fala ou de escrita.

De início, alguns verbos que não devem ser conjugados na 1ª pessoa do singular do Presente do Indicativo. Como primeiro exemplo, o verbo “banir”. Não se deve dizer “Eu sempre bano os gatos que reviram minha lata de lixo à noite”. O leitor deve procurar um substituto para essa forma… poderíamos dizer, por exemplo, “Eu sempre expulso os gatos que reviram minha lata de lixo à noite”.

Agora, os verbos “emergir” e “imergir”. Nenhum deles deve ser conjugado na 1ª pessoa do singular do Presente do Indicativo. Eu não “emerjo”, nem “imerjo”. Eu “saio de uma crise” ou Eu “entro completamente no livro que estou lendo”, por exemplo.

Na mesma linha, vão alguns outros verbos bem conhecidos. O verbo “colorir” é um deles. Não se deve dizer “Eu coloro as fotos em preto e branco”, mesmo porque isso fica sonoramente muito feio – o bom senso do leitor, nesses casos, é bastante importante.

Como os verbos acima, podemos citar outros: “carpir”, “demolir” e “exaurir”, entre outros. Como fazer? A dica mais importante é que o leitor tenha um bom vocabulário – o qual sempre pode ser adquirido por meio da leitura de bons textos. Dessa forma, haverá opções para se substituírem esses verbos por outros. “Eu não carpo”, assim como “Eu não demolo”, nem “exauro” (esse, então, fica parecendo o título de famoso romance de Bernardo Guimarães sobre uma escrava branca!).

O leitor mais atento já deve ter percebido que todos esses verbos que listei acima são da terceira conjugação, isto é, terminados em “-ir” no seu infinitivo. E, já que eu fiz alusão ao romance sobre a escravidão, vale dizer que o verbo “abolir” também é defectivo: “Eu não abolo”, mas “Eu revogo a escravidão”, ou “Eu suprimo o cigarro da minha vida”. Tudo é uma questão de se ter vocabulário, como eu já escrevi.

Que tal o verbo “falir”? Em tempos de economia tão difícil no Brasil, infelizmente esse verbo vem aparecendo muito nos noticiários. É outro que não deve ser conjugado na 1ª pessoa do singular do Presente do Indicativo; Vejamos: se fôssemos conjugá-lo nessa pessoa e nesse tempo, ele ficaria “Eu falo quando invisto em negócios dos quais nada entendo”. A forma “falo” é do verbo “falar” – “Eu falo, e ele não me ouve”. Haveria, aí, um problema com essas formas homônimas. Melhor seria: “Eu vou à falência quando invisto em negócios dos quais nada entendo”.

Mais um exemplo: “computar”. Computadores, hoje, são elementos primordiais em nossas vidas. Nem sabemos como vivemos tanto tempo sem eles em nossas casas e em nosso trabalho. Bem, se fôssemos conjugar esse verbo em todas as pessoas, teríamos “eu computo”, “tu computas”, “ele

computa”, no mínimo palavras sonoramente “esquisitas”, digamos! Na prática e na pressa do dia a dia, contudo, as pessoas nem se importam com isso e conjugam esse verbo em todas as pessoas. E vamos em frente!

Cabe aqui também, a menção dos verbos que expressam ação ou estado de animais – são os chamados “verbos unipessoais”, aqueles que devem ser conjugados somente nas terceiras pessoas, do singular e do plural. O verbo “urrar” é um bom exemplo. Quando não empregado de forma metafórica, ele é defectivo: “O leão urrava enquanto o domador brandia seu chicote”.

Os casos são muitos. Para terminar, os verbos “latir” e “ladrar”, por exemplo, mais adequados para cães. Eles me fazem lembrar de minha infância. Muitas vezes, vendo que os netos estavam chateados com alguma crítica ou alguma forma de “bullying”, na escola ou na rua, meu avô nos dizia: “Os cães ladram e a caravana passa”, ou seja, não se incomode com críticas… siga sua vida e deixe para trás os maledicentes e invejosos.

(Sábio conselho em tempos de tanto ódio e intolerância disseminados nas redes sociais!)

UM CURSO DE INGLÊS E A MEMÓRIA
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