REFLEXÕES

 

 

“Matamos o tempo. O tempo nos enterra.”

Machado de Assis

 

Um dos grandes anseios da humanidade, e um dos grandes temas de ficção científica, vem a ser a viagem no tempo – para o passado ou para o futuro, não importa, essa fantasia sempre povoou a mente das pessoas comuns, bem como de escritores, cineastas, músicos, pintores etc.

Já tive reuniões com amigos nas quais o assunto foi abordado, e as preferências variavam de pessoa para pessoa. Alguns queriam voltar ao passado (“Já pensaram se pudéssemos conhecer Leonardo da Vinci?”), outros para revisitarem sua própria vida e conseguirem matar a saudade de um ente querido que não esteja mais neste mundo, por exemplo. Tenho também amigos que, ao contrário, gostariam de viajar para o futuro, pois “saber como estará este mundo daqui a 100, 200 anos seria maravilhoso”. Os gostos e as fantasias são os mais diversos…

Em 1966, o lendário produtor Irwin Allen (“Perdidos no Espaço”, “Terra de Gigantes”, “Viagem ao Fundo do Mar”) lançou uma série chamada “The Time Tunnel” (“O Túnel do Tempo”) à qual já fiz alusão em outro texto. Estrelada pelos atores Robert Colbert (Doug Phillips) e James Darren (Tony Newman), conta a história de dois cientistas que participam de um arrojado projeto do governo americano e que acabam presos no tempo, viajando para importantes períodos da história. Além dos citados atores, uma curiosidade: temos também Lee Meriwether, uma das atrizes que interpretaram a Mulher Gato no seriado Batman, na mesma década.

Bem, ao contrário do que se possa pensar, a série não fez sucesso. Tornou-se “cult”, mas não fez sucesso, tanto que só há uma temporada. A repetição na TV brasileira foi tanta, que a gente não percebeu que são apenas 30 episódios. No primeiro deles, nossos cientistas caem num navio, em pleno alto-mar, e descobrem que estão no Titanic! Precisam se safar antes que a coisa afunde. Muito legal! Esse, contudo, não é o episódio que mais me impactou desde que eu era menino.

No quarto episódio, “The day the sky fell down” (“O dia em que o céu desabou”), os dois cientistas vão parar em Pearl Harbor, na véspera do ataque japonês, na Segunda Guerra Mundial. O fato em si já seria bastante impactante, mas há um detalhe que me marcou para sempre: Tony não só terá a oportunidade de se encontrar consigo mesmo quando criança, como verá o pai pela última vez. Ele é um oficial americano e jamais foi encontrado depois do bombardeio. Tony tem a oportunidade de falar com o pai e o alerta sobre o ataque, e logicamente o militar não acredita no que está ouvindo. Como acreditar que o filho veio do futuro? O episódio é bonito e emocionante. Na minha opinião, o melhor da série. Desde menino, fiquei tocado pelo enredo.

No fim, eles têm a chance de conversar e tudo fica esclarecido, mas o destino se cumpre, porque os cientistas não podem alterar o passado. (Desculpem pelo “spoiler”). Se você assistir ao episódio num dia em que estiver mais sensível, vai acabar se emocionando! Não tenha dúvidas! Acho que os roteiristas estavam inspirados…

Voltemos para o século 21. Tenho recebido uma brincadeira pelo Whatsapp que me parece ser bem popular no Facebook: são fotos de personalidades do cinema e da música em dois momentos de suas vidas, lado a lado, normalmente abraçados, como se fossem duas pessoas diferentes. O efeito é bonito, muito legal mesmo, e adorei a brincadeira na primeira vez em que recebi as fotos por meio de um amigo meu. E fiquei pensando exatamente nessa história de voltar no tempo e me encontrar comigo mesmo…

O que eu diria para mim se eu tivesse oportunidade de me encontrar quando eu era criança ou um adolescente? Não tenho muita saudade dessas épocas da minha vida (acho que sou muito mais feliz hoje do que fui no passado!), mas talvez tivesse umas boas dicas para dar àquela criança ou àquele jovem… Fiquei pensando muito nisso. A brincadeira chegou-me ao celular num dia de chuva na cidade, dia nublado, céu cinzento, que, confesso, adoro, mas que me deixa muito mais pensativo e introspectivo do que um dia de sol. Tudo isso acentuado pelo isolamento que já dura cinco meses em função da pandemia que assola o mundo.

Pensei muito em coisas da minha infância – nos amigos do futebol, nos amigos da escola, nos professores, nos meus avós e nos meus pais que já morreram. Se eu pudesse falar “comigo criança”, talvez eu dissesse para aquele menino não levar a vida tão a sério (eu fui um menino muito sério e responsável). A dor de barriga antes das provas da escola, o medo de uma nota vermelha, o medo de não passar de ano. Quando adolescente, uma seriedade maior ainda, sem muito tempo para a imaturidade e para as “derrapadas” próprias daquela fase. Fui um adolescente recluso e meio triste.

Talvez eu tivesse me iludido ou pouco menos com as pessoas ou acreditado um pouco menos nas palavras delas. Acho que seria isso que eu diria para mim mesmo. E, durante minha adolescência, talvez eu tivesse sido um pouco menos triste com o que me rodeava, pois a solução não estava em minhas mãos. Foram tempos difíceis, num país mais difícil do que este em que vivemos.

Fiz esse exercício de imaginação e acabei revendo o episódio da série. Claro que me emocionei de novo com a história do reencontro de Tony e seu pai militar, morto em Pearl Harbor. No fim das contas, acho que todo o mundo gostaria de mudar alguma coisa do passado.

O tempo cura tudo…

Não cura!

 

 

 

O CHAVÃO
REFORMAS ORTOGRÁFICAS

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12 Comentários. Deixe novo

  • Acho que é um dos textos que mais me fez refletir… sobre a vida, o passado, os medos e anseios.
    Incrível como sempre!

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  • Avatar
    Shirleyne Diniz
    setembro 15, 2020 1:49 am

    Muito bom amigo. Sempre instigando reflexões…
    De pronto não mudaria nada mas , parando pra pensar… também teria boas dicas pra me dar Hehe.

    Responder
  • Perfeito

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  • Avatar
    VERONICA M V ROCHA
    setembro 15, 2020 10:25 am

    Quanta sensibilidade!

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  • Avatar
    Suzy Aparecida Colli
    setembro 15, 2020 11:36 am

    Pensamos que nada pode abrandar um coração amargurado, triste, mas o tempo pode. O tempo é o mestre em consolar…
    Bem, eu diria para mim: Vai fazer uma “bariátrica ” que quando jovem é mais fácil e pense na aposentadoria !!!!! rs . Brincadeirinja….eu não mudaria nada. Só diria: esforce-se por ser feliz todos os dias…

    Responder
  • Avatar
    Suzy Aparecida Colli
    setembro 15, 2020 11:37 am

    Pensamos que nada pode abrandar um coração amargurado, triste, mas o tempo pode. O tempo é o mestre em consolar…
    Bem, eu diria para mim: Vai fazer uma “bariátrica ” que quando jovem é mais fácil e pense na aposentadoria !!!!! rs . Brincadeirinja….eu não mudaria nada. Só diria: esforce-se por ser feliz todos os dias…

    Responder
  • Avatar
    Edilson Cardoso
    setembro 15, 2020 1:10 pm

    Tenho a série Túnel do Tempo e não assisti na sua totoalidade! Quando criança acompanhava pela TV, agora se eu pudesse voltar no tempo ou até mesmo viajar para o futuro, gostaria de poder fazer muitas coisas, mas muitas mesmo, por exemplo reencontrar com meu pai , minha mãe e minha avó.

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  • Bem interessante sua perpesctiva, creio ser bem comum as pessoas, pensarem em voltar, dar dicas e sugestões sobre como deveriam agir.
    E me pergunto sempre, se as escolhas fossem diferentes quais caminhos eu teria seguido, o que teria vivido, aprendido, com quem teria namorado, enfim me transformado e aí vem a pergunta, valeria a pena?
    Sei lá, creio estar bem resolvido, gosto da pessoa que me tornei e não gostaria de mudar, talvez me tornar um loiro de “olhos azuis” mas mesmo que isso fosse possível eu não seria mais como sou, e eu me amo assim, desta forma vamos deixar como no túnel do tempo, sem mudanças no passado afinal quero manter a minha ótima “aparência” de hoje.

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    Angelo Antonio Pavone
    setembro 15, 2020 5:59 pm

    Olá Prof Vitor
    Texto brilhante e intensamente reflexivo. Difícil tomar partido. Para o futuro ou para o passado? Em ambos os casos encontraremos alegrias e desilusões. Acho que me contentarei em viver agora e agora e agora. …..
    Parabéns pelo texto

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  • Interessante, vc me fez refletir sobre muitas coisas passadas que infelizmente não posso mudar a história. Então melhor é toca a vida e seguir enfrente da melhor forma que podemos .

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  • Avatar
    Bernadete Freitas
    setembro 16, 2020 3:48 pm

    Muito bom. E muito interessante. Mas eu não gostaria de viajar nem para o passado e nem para o futuro.
    Estranho, não? Meu pai dizia que seria incrível conhecer o futuro. Não herdei dele esta curiosidade…

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    Baltasar Macias Pereira
    setembro 17, 2020 12:25 am

    Gostei muito do tema e do seriado que foi lembrado e o qual quando criança adorava assistir.

    Sempre me fascinou este assunto de voltar no tempo e com certeza eu gostaria muito de voltar ao passado ,mas seria dentro do Século XX.
    Já sonhei algumas vezes eu vivendo em pleno anos 60 do século passado e vendo os ônibus, as pessoas e passeando entre elas já como adulto.
    Quando acordava eu pensava
    ” Imagine se voltasse e encontrasse meus Pais ainda jovens e a mim próprio ainda criança.”
    Nossa! Quantas coisas teria falado a mim mesmo.
    Com certeza,eu,criança, nada iria entender.
    Me tocou também a citação do episódio do ” Túnel do Tempo” onde eles voltam a Época do ataque em Pearl Harbor.
    Bela Crônica.
    Viajei com ela no Tempo.

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