O EMPREGO DE CERTAS EXPRESSÕES EM PORTUGUÊS

O advento da internet e dos telefones celulares fez com que as pessoas escrevessem e lessem cada vez mais – pelo menos no “Facebook”. O problema é que nem sempre o que se lê por lá está correto do ponto de vista da Gramática e da norma padrão da língua. Como já tive oportunidade de afirmar neste espaço – mais de uma vez – as pessoas procuram a comunicação rápida e não estão muito preocupadas se o emprego de, por exemplo, “mas” ou “mais” fez alguma diferença naquilo que queriam transmitir.

É sempre bom, porém, ter em mente que existe a opção de se escrever com mais clareza para se evitar o chamado “ruído na comunicação” – aquele detalhe que às vezes deixa a mensagem truncada, ambígua, sem sentido, por mais que esteja boa para quem a escreveu.

Em sala de aula, eu costumava reservar uma semana fora da programação oficial para tirar essas dúvidas de alunos – e deixava que eles me bombardeassem com suas questões sobre esta ou aquela expressão.

Professor, quando usar “onde” e quando usar “aonde”? Eram muitos os alunos com essa dúvida, por exemplo. Vamos lá: se o verbo der a ideia de estado ou permanência, utiliza-se o “onde”: “Onde você estava, rapaz?”. Quem está está em algum lugar. Se o verbo pedir a preposição “a”, utiliza-se “aonde”: Aonde você foi?, pois quem vai vai a algum lugar. “Você foi a que lugar?”.

Outras duas expressões que causam um pouco de confusão são “ao encontro de” e “de encontro a”.

Caro leitor, “ir ao encontro de” significa “aproximar-se” ou mesmo “concordar”, dependendo do contexto. “Sua opinião vai ao encontro da minha quando à corrupção: concordamos que ela precisa ser punida!”.

Agora, “ir de encontro a” significa oposição, conflito, colisão. “O ônibus foi de encontro ao poste” ou “Como temos visões

diferentes sobre este problema, sua opinião vai de encontro à minha”.

Que tal falarmos um pouco sobre “demais” e “de mais”? Bem, “demais” pode ser um advérbio de intensidade em orações como “Os brasileiros estão indignados demais com tanta roubalheira” (muito indignados); o mesmo termo também pode ser um pronome indefinido, como sinônimo de “os outros”: “Estudaremos Graciliano Ramos e os demais autores do Modernismo”.

A expressão “de mais” é oposta à expressão “de menos”. Observe: “Não vejo nada de mais em ficar sem celular” ou “A palestra foi cancelada porque apareceram alunos de mais… eles não cabiam no auditório”. Se fossem alunos “de menos”, o auditório ficaria vazio, certo?

Mais duas que os alunos traziam à aula com muita frequência eram “na medida em que” e “à medida que”. Vamos a elas! “Na medida em que” é sinônimo de “porque”, exprimindo causa: “Não fomos à praia na medida em que a água estava imprópria para o banho” ou “Na medida em que não se valoriza a educação, o país está condenado à ignorância”.

Outros são os significados de “à medida que”: proporção, progresso simultâneo. “À medida que os vestibulares chegavam, os alunos ficavam mais tensos” ou “Os professores ficavam mais cansados à medida que o ano letivo progredia”.

E o que falar de “a” e “há” na designação de tempo? Sem querer desprezar tudo o que expus acima, acho que temos aqui a maior confusão de todas, pelo que tenho lido em e-mails e mensagens de whatsapp. Quando se quiser demonstrar um tempo que já passou, já transcorrido, deve-se utilizar o verbo “haver” (equivalente, nesse sentido, ao verbo “fazer”): “Ela nasceu em Portugal. Está no Brasil há (faz) muitos anos”; “Cheguei do trabalho há pouco”. São ações já concluídas.

A preposição “a” demonstra um tempo futuro, o que vai acontecer ainda: “Daqui a duas horas, irei ao dentista”, “O trem

sairá da estação daqui a cinco minutos”. De novo: observe os verbos no futuro.

O caso de “mas” e “mais” leva qualquer professor de português ao desespero, porém há esperança. Não desistamos! “Mas” equivale a “contudo”, “entretanto”, “todavia”, “porém”.Liga duas orações, quebrando a expectativa criada pela primeira, digamos: “O time jogou muito bem (era de se esperar que ganhasse), mas (contudo) perdeu o jogo”; “Sempre viajamos nas férias (era de se esperar que viajássemos), mas (entretanto) ficaremos em casa neste verão”.

O termo “mais”, por sua vez, dá ideia de intensidade: “Ele foi o aluno mais esforçado do curso”; ou ideia de “adição” “Ele conheceu os irmãos da noiva mais os primos dela”.

Por fim, eu gostaria de comentar uma construção muito utilizada na fala, mas que seria melhor se evitada na escrita. Diz respeito à indicação da quantidade de pessoas em um grupo. É muito comum ouvirmos o seguinte diálogo:

– Quantos foram à Europa com você?

-Ah, éramos em dez!

Essa preposição “em”, na escrita, deve ser suprimida. Lembra-se do bonito romance da escritora Maria José Dupré? A comovente história de D. Lola, Seu Júlio e os quatro filhos chama-se “Éramos Seis” e não “Éramos em Seis”. Se você se lembrar do livro, não haverá erro. Mais uma vez, a literatura nos ajudando nas questões práticas!

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7 Comentários. Deixe novo

  • Avatar
    Angelo Antonio Pavone
    julho 26, 2019 7:42 pm

    Prezado Prof Vitor
    Belo texto. Muito esclarecedor
    Parabéns!

    Responder
  • Muito bom, como sempre! Explicações claras, sobre eternas dúvidas na língua portuguesa!

    Responder
  • Muito bom! Divertido e esclarecedor!
    Adorei, como sempre!

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  • Avatar
    Baltasar Pereira
    julho 26, 2019 8:40 pm

    Como sempre Texto elucidativo sobre dúvidas muito frequentes. Eu,mesmo, tenho dúvidas sobre a ou há e foi de encontro as minhas dúvidas . Texto gostoso e esclarecedor. Ao ler temos vontade de aprofundar mais neste tema.

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  • A internet de uma certa forma, aniquilou a escrita tradicional, a correta, pois o que lemos hoje em dia realmente deixa a desejar. Claro, temos dúvidas, mas devemos ler mais, pesquisar. Vejamos algumas palavras em grupos de whatsapp e demais, “neh”, “querem mim ver”, “avisa qui nóis”, “pra mim fazer”, “nadaver”, “agente”, “concerteza”, enfim……………Nada como um bom resumo do professor Vitor para nos ajudar nas questões práticas.

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  • Maravilhoso!!

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  • Excelente texto. As dicas acerca do emprego de termos os quais causam dúvida estão didaticamente apresentadas. Obrigado, Professor Vítor!

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