FORMAS DE CARINHO

Na aula de literatura, a gente aprende que o Romantismo foi aquele movimento no qual os escritores deram plena vazão aos sentimentos e à subjetividade, viam na natureza uma espécie de mãe protetora, passiva, leal, sua confidente de todas as horas, aquela que “poderia lhes ofertar as respostas que sua sensibilidade reclamava”, nas palavras do saudoso professor Massaud Moisés.

De fato, quando estudamos esse período, temos contato com alguns dos versos mais exacerbados e repletos de paixão, dor, mágoa, alegria, esperança, ódio, frustração e tantas outras experiências vividas por aquele que fala no poema, a quem chamamos de “eu lírico”. Bem, deixados de lado as análises acadêmicas e os termos técnicos próprios da sala de aula, é comum que ainda encontremos amigos que se intitulem “românticos”… mas o que é ser um romântico?

– Eu sou um romântico – me diz um amigo que adora mandar flores para a namorada (do momento), gosta de passear de mãos dadas nas tardes de domingo, de ficar observando enquanto a moça toma seu sorvete (“Ela é linda!”), aprecia ficar horas ao telefone com ela e gosta desse negócio de se ajoelhar para pedir a mão da moça em casamento… entre tantos outros comportamentos do mesmo jaez. Sim, existem aqueles que gostam e precisam viver sempre com alguém, pois não suportam a solidão e se sentem a pior das criaturas quando não estão envolvidas sentimentalmente. (Também conheço pessoas que “amam” uma pessoa diferente a cada 15 dias…)

As demonstrações da amor (sentimento por si só complexo pra caramba!) variam de pessoa para pessoa, e há quem diga que variem também de homem para mulher, isto é, eles teriam um jeito de demonstrar que estão apaixonados; elas teriam outro. Não sei se isso é verdade. Conheci rapazes muito sensíveis e outros que eram verdadeiros brucutus; por

outro lado, tive grandes amigas românticas, e outras que detestavam, por exemplo, ganhar flores e bombons e “essa melação toda”.

Tudo isso é muito relativo e fica difícil generalizar. O que percebo é que há, sim, uma espécie de “Indústria do Amor” rondando a gente. São músicas, filmes, livros, peças de teatro, pinturas, tudo enaltecendo esse sentimento e nos empurrando goela abaixo a teoria de que “é impossível ser feliz sozinho”, como diz a canção. É quase como se o sucesso de alguém como pessoa fosse medido pelo fato de ela ter ou não alguém na vida. E as regras impostas… Você se esqueceu do aniversário do primeiro beijo? Insensível! Como você foi se esquecer da data e do local onde vocês se viram pela primeira vez? Desligado! Não vá me dizer que você não comprou um presente para ele(a) no Dia dos Namorados… que coração de pedra! E por aí vamos…

O fato é que demonstrar que se gosta de alguém é bastante importante – e presentes não são a única forma. Palavras e atos ajudam e muito. Às vezes, até o silêncio na hora certa é importante para que alguém entenda que estamos ali para o que der e vier e, se silenciamos, é porque o momento assim o pede. Muitas vezes, um olhar, um sorriso, uma lágrima solidária, um abraço, uma música, um livro, uma palavra dita na hora certa… tudo isso pode demonstrar o amor que sentimos por aquela pessoa que nos é especial. Acho que o amor não é amigo do barulho, embora muito gente faça barulho por causa do amor!

E o que dizer daqueles que amam em silêncio – ou porque não têm coragem de revelar o que sentem, ou porque não podem e não devem jamais demonstrar o que guardam dentro do peito? (Não deve ser terrível se apaixonar pelo namorado ou namorada do melhor amigo? Não deve ser um tormento querer para si a esposa do irmão, por exemplo?). Sobre o dito “amor platônico”, os versos de Camões nos dão uma aula de observação, idealização e desejo. Sim, no soneto, Jacob, após servir Labão durante sete anos e não receber Raquel, propõe-se a trabalhar mais sete anos e mais sete e

mais sete até conseguir a mão de sua amada – “se não fora para tão longo amor tão curta a vida”.

Aliás, a poesia foi desde sempre um modo de se demonstrar o amor – sempre lembrando que, no fundo, a música é poesia também. Desde versos muito simples até versos profundamente elaborados com rima e métrica uniforme, esse foi e é um recurso muito eficaz na conquista de alguém que se ama. Lembrei agora da música de Paul McCartney, “Silly love songs”, na qual ele canta: “Algumas pessoas querem encher o mundo com tolas canções de amor” e pergunta: “O que há de errado com isso?”.

Por falar em declarações tolas e simples, lembro de uma vez ter chegado à escola, eu estava no 2º ano do Ensino Médio, e na lousa alguém ter deixado escritos os seguintes versos: “Não sei se sei / Se sei, não sei / Só sei que sei / Que por ti me apaixonei”. Achei aquilo bem tolo, mas, vejam só!, depois de quase 40 anos, ainda não esqueci.

Acho que as melhores declarações de amor se fazem disso – simplicidade, sinceridade… e um pouco de tolice.

RESPOSTAS DISSERTATIVAS
FELLINI, 100

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7 Comentários. Deixe novo

  • Texto lindo, de um singeleza ímpar. Mais uma vez, o Professor Vítor comove a nós leitores. Obrigado!

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    Angelo Antonio Pavone
    janeiro 20, 2020 9:20 pm

    Olá Prof Vitor
    Belo texto. Foi uma boa maneira de descrever algumas sutilezas a respeito do amor.
    Parabéns

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  • Bem interessante sua crônica, esclarecedora. Gostei da forma como você finalizou. Simplesmente sincero.

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  • Muito lindo! Adorei!
    O amor! Sentimento difícil de explicar, mas você falou dele com muita sabedoria!

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    Baltasar Macias Pereira
    janeiro 21, 2020 12:20 pm

    Texto interessante e curioso sobre o Romantismo e o Amor em suas várias facetas. Concordo que Declarações de Amor se fazem com uma mescla de Simplicidade , Sinceridade e um pouco de Tolice. Gostei dos exemplos mostrados sobre os diversos comportamentos das Pessoas. Texto gostoso de se ler.🤗👏👏

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    Suzy Aparecida Colli
    janeiro 22, 2020 4:30 am

    Sabe amigo….sou uma tola de nascença…porque o amor está, sem mentira, nas minhas veias.

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  • Q lindo, amei ler sobre o amor. Obg Vitor

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