FELLINI, 100

Se vivo, o grande diretor italiano teria completado 100 anos, neste mês de janeiro, dia 20.

Creio ser impossível, para quem já tomou contato com sua obra, esquecer o primeiro filme que viu do homem nascido em Rimini e que, depois, tornou-se uma das maiores referências quando o assunto são sensibilidade, memória, fantasia, sonho e ternura – em suma, o melhor do cinema!

No meu caso, jamais esquecerei daquela noite de 1986 em que um amigo mais velho me mostrou “Amarcord” (1975), filme gravado da TV, em VHS(!), numa daquelas sessões que a Rede Globo promovia em suas madrugadas de sexta para sábado e de sábado para domingo – Sessão de Gala, Classe A, Campões de Bilheteria etc. Quem viveu se lembra.

Eu era um jovem de 22 anos e, na minha ignorância maior do que a de hoje, nunca havia visto nada do diretor. A versão que vi era dublada, uma dublagem deliciosa (devo confessar), bem feita, engraçada e poética, em nada “estragando” a mensagem que se queria transmitir. “Amarcord”, como vim a saber mais tarde, quer dizer “Eu me recordo”, no dialeto da região em que Federico Fellini havia nascido. E que viagem à infância o filme proporciona!

Não sou crítico de cinema, mas penso que a receita do sucesso de Federico vem a ser a combinação perfeita entre sonho e realidade, mistura temperada com talento e sensibilidade que, invariavelmente, leva o telespectador ao riso e à lágrima (dependendo do filme) em questão de segundos. Os tipos são italianos, porém universais, porque universais são a poesia, a memória, a saudade e o amor.

Entre outros de muito talento, cito dois grandes atores de seus filmes: sua esposa, Giulietta Masina, e o inesquecível Marcelo Mastroianni. Ela, em papéis como a prostituta sonhadora e sensível em “Noites de Cabíria” (1958) , por

exemplo; ele, em “A Doce Vida” (1962), interpretando o jornalista Marcello, convivendo com celebridades e sua vida fútil e badalada da Roma dos anos 60 – tema atualíssimo! (Só pra citar dois trabalhos desses dois maravilhosos atores…)

Voltando a “Amarcord”, o filme foi, pra mim, uma viagem sem volta a Fellini – depois, fui “crescendo”, e não parei de querer ver mais e mais do diretor. E a paixão foi aumentando. A cena do tio, doente mental, sobre uma árvore, é deliciosa; o conflito político entre o pai do protagonista e um cunhado tem seu correspondente no que se vê em termos de polarização no Brasil hoje – com a diferença de que as personagens são mostradas pelo ângulo do humor, da saudade e da poesia.

Fellini soube, também, explorar a tristeza e a melancolia sem perder o encantamento. Lembro-me bem do impacto que senti quando vi “A Estrada da Vida” (1954), a delicada Gelsomina, interpretada por Giulietta, sofrendo as crueldades impostas pelo bruto e inescrupuloso Zampanò, também brilhantemente interpretado por Antony Quinn. O filme é de cortar o coração. Nem só de riso se fez Federico.

Eu poderia ficar aqui descrevendo filmes e cenas que me marcaram em seus filmes. Haveria uma lista enorme, de cunho pessoal e talvez intransferível, visto que experiências desse tipo são particulares e devem ser vividas pelas pessoas de modo diferente.

Façamos justiça: não podemos deixar de citar a música de Nino Rota, tão presente nos filmes do grande diretor. São canções belíssimas, canções que se encaixam com perfeição nas histórias e situações vividas pelas personagens “fellinianas” – vejam que Federico deu origem a um adjetivo. “Felliniano”, segundo os dicionários, é tudo aquilo que diz respeito ao diretor, mas também pode ser “fantasioso”, “sensível”, “memorialista”.

Nunca é tarde para se descobrir sua obra. E fico na torcida para que ele não caia no esquecimento. Perdoem-me pelo involuntário trocadilho, mas o diretor de “Amarcord” não

pode ser esquecido, porque inesquecível é o grande cinema que ele e tantos outros diretores produziram.

Ah, e se esse negócio de premiação for realmente a medida do sucesso (não é!), o diretor foi o vencedor de três prêmios Oscar em diferentes categorias: em 1958, “Noites de Cabíria”; em 1964, “Oito e meio” e, em 1975, “Amarcord”, além de outras 12 indicações e muitos, muitos prêmios mundo afora.

Mais um prova de que um clássico não envelhece: lembro de ter ido ao cinema ver “Ginger e Fred”, estrelado por Giulietta e Mastroianni, no Natal de 1986. Poético, bonito, triste, engraçado, é uma crítica marcante e uma denúncia brutal sobre a (atual) estupidez televisiva.

Sim, Fellini é atualíssimo.

Tomara que as novas gerações possam descobri-lo! Ele é mais necessário quanto mais mergulhamos na mediocridade e na superficialidade do século 21

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10 Comentários. Deixe novo

  • Avatar
    Flávio Scorpike
    janeiro 30, 2020 2:39 am

    Muito legal! Parabéns pelo texto! Fellini, seu cinema e sua linguagem influenciaram a todos os que vieram depois, dos mais diferentes gêneros e estilos! Viva Fellini! E o mago da música que ele trouxe junto, Nino Rota!

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  • Sempre muito claro, culto e brilhante

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    Suzy Aparecida Colli
    janeiro 30, 2020 10:20 am

    Nossa amigo ! Que maravilha de comentário! Aguçou minha vontade de rever esses filmes…

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  • Ótima crônica, dando dicas preciosas sobre os filmes desse diretor maravilhoso! Amei!

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  • Belíssima homenagem ao cineasta italiano. Obrigado, Professor!

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    Angelo Antonio Pavone
    janeiro 30, 2020 11:13 pm

    Olá Prof Vitor
    Belíssimo este “omaggio ” ao Fellini.
    Parabéns
    Grande abraço

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  • Fazendo justiça: maravilhoso seu comentário sobre Fellini.

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    Edilson Cardoso
    janeiro 31, 2020 5:34 pm

    Professor, texto requíssimo e eu até já havia me esquecido de Fellini! Quanto aos filmes mencionados, verei se acho para um possível download.
    Obrigado pelas dicas, quem tem amigo, tem tudo, né ?

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    Baltasar Pereira
    fevereiro 7, 2020 3:15 am

    Eu assisti a alguns filmes de Fellini e realmente são Poéticos, Sensíveis, Fantasiosos e Realistas. Emocionei-me com o filme “Noites de Cabiria” com a Prostituta Sonhadora e não posso deixar de falar da dureza e sensibilidade de “Na Estrada da Vida”.

    Felino continua muito atual e quando vi “Ginger e Fred” e a crítica ao Consumismo não só de objetos,mas também de transformar as misérias humanas em Ibope,me dei conta de como ele continua atual.

    Belíssima Crônica. 👏👏👏

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    Alahkin de Barros Filho
    fevereiro 28, 2020 9:35 pm

    Seu artigo me fez pensar em rever Fellini. Vou fazê-lo em breve. Belo texto.

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