DO PÉ À CABEÇA

Acho sempre muito interessante e divertido explorar o campo semântico da conotação, isto é, o campo em que as palavras são utilizadas não no seu sentido literal, mas de forma figurada, com bom humor, criatividade e alguma irreverência. É no terreno da linguagem coloquial que os falantes de uma língua expressam sua visão de mundo com mais espontaneidade, revelando sentimentos como alegria, raiva, amor, admiração, orgulho etc.

Vejamos, por exemplo, algumas expressões que utilizam a palavra “pé”. Os românticos gostam de dizer que todas as pessoas podem encontrar alguém bacana, todas têm direito à felicidade sentimental  e podem encontrar o amor. Para isso, muitas vezes dizem que “há sempre um chinelo para um pé descalço”. Os mais sábios, contudo, nos aconselham para que não fiquemos sonhando demais, devemos ter “os pés no chão”, pois a vida nem sempre é fácil e precisamos estar atentos para os amores que virão.

No tempo dos meus pais, os bailes familiares eram uma grande oportunidade de se conhecer alguém – um moço  trabalhador ou uma “moça direita”, com quem se pudesse “constituir família”. (Os meus pais se conheceram num baile.) Pois bem, aquele que dançava bem, o rapaz que sabia conduzir bem uma moça era chamado de “pé de valsa”, o bom dançarino, aquele que não pisava no “pé da moça” e não dava vexame no salão.

E, enquanto dançavam, certamente os namorados falavam palavras carinhosas “ao pé do ouvido”, longe dos olhos implacáveis dos pais. Tempos difíceis aqueles…

Se pensarmos no campo das finanças e das classes sociais, encontraremos as expressões “pé rapado” e “pé de chinelo” com as quais eram (são) denominadas as pessoas sem muitos recursos, as pessoa mais pobres.  Tanto uma quanto a outra são carregadas de muita irreverência, pode-se ver, e de muito preconceito também. Esse negócio de classes sociais é sempre muito complicado, principalmente num país tão desigual como o Brasil. Será que algum dia teremos um país em que as pessoas estarão mais ou menos “em pé de igualdade”, isto é, com os mesmos direitos e os mesmos deveres diante da Constituição?

As pessoas mais vaidosas – ou que dependem da aparência no seu dia a dia, como modelos e profissionais da TV, cinema e teatro – preocupam-se com as rugas que podem lhes deixar envelhecidos ou com um mau aspecto diante do público. Recorrem a cremes e outros recursos contra os chamados “pés de galinha”, aquelas rugas de expressão que se formam nos cantos dos olhos.

Se você perceber que vai cair um “pé d´água” (tempestade), o melhor a fazer é botar o “pé na tábua” (correr) se não quiser ficar ensopado.

A criança teimosa “bate o pé” e diz que não quer largar o celular, enquanto a mãe vai perdendo a paciência.

O esportista derrotado, mas que lutou e não se entregou, costuma ser visto como alguém que “caiu de pé”, pois não perdeu sua dignidade.

Aquele que não tem sorte ou não é bem sucedido em seus intentos é visto como um “pé frio”; aquele que abusa do álcool é um “pé de cana”; coisa gostosa é comer um “pé de moleque” na quermesse; se você, muitas vezes, não entende um texto, talvez seja porque o esteja levando “ao pé da letra” e precisa compreender o que se diz metaforicamente; mas, quando a explicação vem no “pé da página”, fica mais fácil. E assim por diante…

Outra parte do corpo muito explorada na linguagem coloquial vem a ser a “cabeça”. São numerosas as expressões com essa palavra. Vejamos algumas delas:

Quando uma pessoa tem uma opinião formada sobre alguma coisa, dizemos que ela está com a “cabeça feita”, mas esperamos que ela não seja um “cabeça dura”, ou seja, resistente ao extremo diante das opiniões divergentes. (Hoje, é o que mais se encontra por aí…). O respeito ao outro é a base dos relacionamentos, porém, como diziam meus avós, “cada cabeça, uma sentença”.

Um cidadão que não tem juízo, que não tem discernimento, é considerado um “cabeça de vento” ou um “cabeça oca”; já um preconceituoso e reacionário é tido como alguém de “cabeça pequena”.

Creio que, nas reuniões dos estudantes dos anos 70, nasceu a expressão “papo cabeça”, aquela conversa intelectualizada, muitas vezes modorrenta e chata que não leva a lugar algum. Todos nós já presenciamos uma situação assim. Temos o “filme cabeça”, a “peça cabeça”, o “livro cabeça” e por aí vai. A chatice não tem limites!

Enquanto o sonhador, o chamado “nefelibata”, é um cidadão que está sempre com a “cabeça nas nuvens” e vive fugindo da realidade, aquele que não tem talento em sua profissão é chamado maldosamente de “cabeça de bagre”. Sim, de crueldade também vive a linguagem coloquial.

Ficamos de “cabeça quente” quando estamos nervosos, mas a sabedoria manda que só tomemos decisões importantes de “cabeça fria”, isto é, calmos e tranquilos. E não nos esqueçamos de que “a cabeça” é uma parte do corpo, já “o cabeça” é o líder de um grupo, de um movimento etc.

Tenho certeza de que deixei muitas expressões de fora, das quais o leitor deve se lembrar. O bacana é exatamente isto: a gente não consegue esgotar a lista, pois novas expressões surgem, mostrando sempre a criatividade da linguagem quotidiana.

 

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