A SOLIDÃO

A solidão é fera, a solidão devora.
É amiga das horas, prima-irmã do tempo,
E faz nossos relógios caminharem lentos,

Causando um descompasso no meu coração (…)”

                                                        Solidão – Alceu Valença

 

Estou lendo “História da Solidão e dos Solitários”, do professor de História George Minois, em que o autor faz uma análise desse sentimento desde tempos bíblicos até, pelo que vejo no índice, nossos dias no século 21.         Ainda estou no segundo capítulo e já posso dizer que a leitura é interessantíssima para quem quiser se aprofundar num tema  agora considerado uma “epidemia existencial”.

Leio também, em uma matéria jornalística, que “o City Index de 2016, uma pesquisa da revista britânica Time Out com 20 mil participantes de 18 cidades globais, listou as mais solitárias do mundo — Londres lidera, seguida de Nova York, Dubai, Los Angeles e São Paulo”.

Bem, a questão de se estar sozinho tem suas ramificações e variações. Pode-se estar sozinho no meio de uma multidão – basta que se vá à avenida Paulista, na hora do almoço, por exemplo, e a pessoa experimentará essa sensação -, mas também pode-se estar sozinho pela própria natureza de uma sociedade que vai se fragmentando e não mais cultiva o diálogo e as conexões entre as pessoas.

Cada um no seu celular, cada um ouvindo sua música, seja nas ruas ou no metrô, ou mesmo no escritório, ou no pátio da faculdade na hora do intervalo. “Cada um no seu quadrado” parece ser a filosofia reinante . E, se propomos conversas, muitas vezes somos tachados de inconvenientes ou chatos mesmo. Nos casos mais extremos, de assediadores.

Não é de hoje que a solidão goza de má reputação. Desde muito, muito tempo, o solitário é visto como um eremita, um bicho do mato, um ser que “não consegue fazer parte” do grupo e, que, por isso mesmo, isola-se e é isolado. Acho que somos educados por nossas famílias a buscar companhia – primeiro, dos irmãos; depois, dos parentes mais periféricos, até chegarmos aos amigos e, finalmente, aos parceiros afetivos no casamento. O próprio adjetivo “solteirão” (“solteirona”) traz uma carga bastante pesada para aquele que não conseguiu se casar ou não se casou por pura opção. Ele é visto como um fracassado, como se todo casamento fosse sinônimo de sucesso…

“Não é bom que o homem esteja só” teria sido, segundo a Bíblia, a constatação de Deus após a criação de Adão, e esse princípio tem guiado os homens  na procura daquele ser que o completaria, que tornaria sua vida “menos solitária”… mas já conheci pessoas que se sentem sozinhas dentro de um casamento, dentro de uma família numerosa. Somos seres pensantes, seres que vivem dentro de seu próprio mundo mental, um mundo por vezes impenetrável.

Estar sozinho não quer dizer que se seja solitário. Parece-me que falta às pessoas de hoje o refúgio das artes – do cinema, do teatro, da literatura. Tenho na minha geladeira um ímã de que gosto muito. Ele diz: “Amantes de livros nunca vão pra cama sozinhos”. E é verdade. Claro que não quero aqui dizer que livros substituem pessoas, mas eles são (como a arte em geral é) grandes companhias, amigos para aquelas noites e dias quando se desejam tranquilidade, paz de espírito e quietude. O poeta, crítico e ensaísta Mário da Silva Brito dizia que “o homem moderno perdeu o prazer do silêncio”.

E o que dizer do trabalho intelectual? Esse precisa do silêncio, da introspecção, da paz (mesmo que o indivíduo esteja em conflito consigo mesmo ou passando por uma fase crítica em sua vida). Não se produz a grande obra de arte em meio ao burburinho e à agitação. Pode-se buscar a inspiração em lugares assim – o cronista observa e escreve seu texto com base nos fatos que observou, mas precisará ficar sozinho para produzir sua humilde crônica.

O poeta Carlos Drummond de Andrade era famosos por sua aversão a festas e reuniões. Dizem que ele sempre tinha alguma desculpa para não comparecer a eventos muito badalados nos quais sabia que encontraria muita gente. Fazia, assim, uma opção clara e espontânea pelo retiro, pelo aconchego de seu apartamento. Como seria a visão de Machado de Assis, Graciliano Ramos, Drummond e outros diante das redes sociais? Será que publicariam diariamente suas fotos como as pessoas fazem hoje, tentando escapar de uma solidão imposta irônica e justamente pelos recursos tecnológicos?

Como diz o ditado, “nem tanto ao mar, nem tanto a terra” – se é importante que estabeleçamos laços afetivos, também é importante que sejamos boas companhias para nós mesmos. Na solidão, meditamos sobre nossa própria existência, sobre o que queremos, sobre o que não toleramos, sobre nosso lugar no mundo, sobre nossos erros e acertos.

Comecei este texto citando o grande compositor Alceu Valença e uma visão melancólica sobre a solidão. Como não gosto de injustiças, cito outros versos que encaram esse sentimento de uma outra forma, também possível: em alguns casos, a solidão é libertadora, desfaz amarras e permite que percorramos nossa própria estrada sem a interferência de outros!

        Saia do meu caminho

        Eu prefiro andar sozinho

        Deixem que eu decida a minha vida

        Não preciso que me digam

        De que lado nasce o sol

        Porque bate lá meu coração (…)”

       Comentários a respeito de John – Belchior

Sugestão de leitura:

MINOIS, Georges. A História da Solidão e dos Solitários, São Paulo, Unesp, 2019.

 

 

A IRONIA
EM CASA

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6 Comentários. Deixe novo

  • Num tom leve e descontraído, próprios do autor-narrador, estão considerações de alto quilate acerca de um tema muito provocante: a solidão e suas faces. Além dessa reflexão, o leitor é presenteado, também, com uma sugestão de leitura. Já a aceitei!

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  • Avatar
    Angelo Antonio Pavone
    março 19, 2020 11:04 am

    Olá Prof Vitor
    Belo texto. Nos faz pensar na solidão muito comum atualmente
    Solidão.

    Responder
  • Sempre uma reflexão excelente. Gratidão.

    Responder
  • Muito bom, comentário perfeito, deixem que eu decida meu caminho, nem tudo ao céu nem tudo à terra, o mundo precisa de equilíbrio, parabéns e, obg.

    Responder
  • Avatar
    Baltasar Pereira
    março 24, 2020 7:37 pm

    Belíssima Crônica sobre a Solidão e o sentir-se solitário .

    Vivemos em uma Época em que temos muitos Amigos pela Internet, mas pessoalmente muitos de nós estamos sem Amigos com “A” maiúsculo.

    Gostei das Pessoas citadas e inclusive as citações aqui apresentadas tanto do Alceu Valença como do Belchior .
    Vivemos já alguns anos Tempos diferentes com a chegada da INTERNET e mais ainda diferente com o
    CORONA VÍRUS.

    Agora tendo de ficar em casa as pessoas, creio eu,não ficarão somente no Celular ou computadores tendo de conversarem e olharem-se umas para outras.

    Quem sabe algo muda em relação ao ser Solitário e a necessidade da Solidão para refletirmos sobre nossas Vidas.

    👏👏👏👏👏👏

    Responder
  • Que belo texto, Vítor. Honesto e relevante.

    De fato, a companhia física nunca substituirá a comunhão de espíritos e, para que haja tal relacionamento, é mister que dois indivíduos autênticos, de olhos bem abertos, estejam dispostos a doar-se por amor um ao outro.

    Já a busca por popularidade em redes sociais por meio de máscaras que ocultam para enganar, não para preservar, é decorre somente da ausência de identidade, de uma alma doente.

    Um abraço!

    Responder

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