A IRONIA

A ironia não quer que se

acredite nela, mas que seja

compreendida, isto é,

interpretada” – Vladimir Jankelevitch, (1903 – 1985),  filósofo francês.

 

Uma das perguntas que mais ouço nas aulas de redação é: “Professor, posso usar ironia no meu texto?”. A resposta é “sim”, mas penso que algumas explicações e esclarecimentos são necessários quanto a esse recurso estilístico.

A ironia, como se estuda em qualquer curso de português no Ensino Médio, diz respeito à “conotação”, um campo no qual as palavras são empregadas com sentido figurado, e não ao pé da letra. A “conotação” opõe-se à “denotação” porque diz respeito ao emprego de um termo com um significado, digamos, estendido, ampliado, para além de seu sentido comum e literal. Assim, na “denotação”, teremos mais objetividade, enquanto na “conotação” a subjetividade e a emoção é que serão destacadas.

São muitas as chamadas “Figuras de Linguagem”, e a ironia é uma delas. Vale ressaltar que a todo momento nós a empregamos em nossas conversas, às vezes com mais frequência do que possamos perceber! E digo mais: talvez seja mais fácil ser irônico ao vivo e em cores do que na escrita, pois a ironia não tem qualquer valor se nosso interlocutor (ou interlocutores) não compreender nossa intenção.

Quando afirmo para qualquer adulto que “ainda bem que não há políticos corruptos no Brasil”, a pessoa ri, aquele riso amargo, e entende minha crítica subjacente à declaração que proferi. Se eu disser a mesma coisa para crianças em seus primeiros anos de escola, provavelmente tomarão ao pé da letra e acreditarão que vivem num país onde grassa a honestidade.

Além disso, ao falar, tenho os recursos da entonação, da minha fisionomia, do meu gestual, tudo contribuindo para que se entenda o oposto do que estou afirmando… e aí reside a essência do ser irônico: ele quer que se compreenda o contrário do que foi dito.

Na escrita, não temos esses recursos – é escrever e torcer para que o leitor (ou leitores) entenda nossa intenção.

Existem obras extensas sobre a ironia. Verdadeiros tratados filosóficos que, no decorrer dos séculos, tentaram esmiuçar esse recurso. Antes de escrever este texto, dei uma olhada no bonito e indispensável “Dicionário de termos literários” do professor Massaud Moisés. Nessa obra, o grande mestre reserva nada menos do que quatro páginas – em colunas duplas – para discorrer sobre a ironia! A gente logo vê que o assunto não é simples.

O professor afirma que “a ironia resulta do inteligente emprego do contraste, com vistas a perturbar o interlocutor (…), é uma forma de humor ou desencadeia-o (…) e depende do contexto, pois fora dele o seu efeito desaparece”.

Impossível, por exemplo, estudar Machado de Assis sem que se estude a ironia contida em seus escritos. O Bruxo do Cosme Velho, como era carinhosamente conhecido, utilizava-se frequentemente desse recurso para tecer críticas à sociedade de sua época. Profundo observador do comportamento humano, nosso escritor maior sabia ser irônico porque possuía duas qualidades básicas para isso: inteligência e elegância: a ironia não é uma porrada, mas uma agulhada; não é um soco, mas um cutucão que se dá com sutileza e precisão.

Lembremos algumas passagens de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”:  quando o protagonista, ciente de que a primeira mulher por quem se apaixonou não estava propriamente interessada em romance (ela era uma prostituta), ele declara para o leitor: “Marcela amou-me durante 15 meses e 11 contos de réis” , isto é, apenas enquanto o rapaz tinha dinheiro para lhe comprar presentes – uma vez terminados os recursos, o “amor” da mulher “subitamente” se foi.

Mais tarde, Brás Cubas conhecerá Eugênia, uma moça dócil e interessante que se interessará por ele… mas Eugênia é coxa, manca, deficiência física que será um empecilho, por parte do narrador, para o envolvimento dos dois. A ironia, aqui, diz respeito ao nome da jovem: “Eugênia” (do grego) quer dizer “a bem nascida”.

Em outra passagem, Brás narra o episódio em que vê um homem chicoteando um escravo em praça pública. Nenhuma novidade em se tratando da época, mas, para surpresa do narrador, o homem do “vergalho” (chicote) era Prudêncio, seu antigo escravo, agora alforriado. Com ironia e sutileza, Machado constrói uma cena trágica, triste, de uma humilhação profunda (própria dos tempos de escravidão), criticando o abuso de poder e o sentimento de vingança, entre outros aspectos da alma humana. “Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas — transmitindo-as a outro”.

Para finalizar, estabeleçamos a diferença entre a ironia e o sarcasmo: a primeira é sutil, inteligente e, frequentemente, bem humorada; o segundo, por sua vez, é violento, grosseiro e não está preocupado com sutilezas.

Até a ironia exige talento!

DISCOS E UMA ILHA DESERTA
A SOLIDÃO

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6 Comentários. Deixe novo

  • Muitas vezes tento colocar ironia em situações engraçadas escrevendo em grupo da família, e posteriormente conversando coma esposa sobre o assunto que ela nunca entente a ironia.
    Agora sorrindo por recordar algumas situações ao escrever estas linhas compreendo.

    Responder
  • Avatar
    Angelo Antonio Pavone
    março 2, 2020 8:47 pm

    Olá Prof Vitor
    Excelente texto
    Claro, inteligente e bem humorado
    Grande abraço

    Responder
  • Avatar
    Clarice keri
    março 3, 2020 2:18 am

    Bem escrito e, esclarecedor, adorei.

    Responder
  • Avatar
    Selma Pavone
    março 3, 2020 8:39 pm

    Adorei sua explanação, Vitor.
    Até pra ser irônico temos que ter talento e boa educação. Muito bom!

    Responder
  • Avatar
    Baltasar Pereira
    março 4, 2020 7:59 pm

    Texto muito interessante sobre as nuances da Ironia. Quão sutil e inteligente tem de ser para fazer Ironia que é muito diferente de Sarcasmo,como o próprio cronista nos faz entender.
    Como sempre dando uma Bela Aula sobre Figuras de Linguagem e o melhor com exemplos excelentes tirados da nossa Literatura ,tal como Machado de Assis.
    Aprendi e reaprendo sempre com seus textos.

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  • Maravilhosa! Sempre aprendendo com esse professor, que ensina com leveza e muita inspiração!

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